O fim da liberdade em Hong Kong

O ‘Apple Daily’ era mais do que um jornal, era um símbolo da liberdade na ilha

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2021 | 03h00

Desde meados do ano passado, com método e brutalidade atípicos até para seus próprios padrões, a China tem implementado uma série de medidas que visam a acabar com a autonomia de Hong Kong com bastante antecedência.

Pelo que fora pactuado no acordo sino-britânico para devolução da soberania de Hong Kong à China, firmado entre o país asiático e o Reino Unido em 1997, a ilha permaneceria como território autônomo até 2047, um arranjo geopolítico que ficou conhecido como “um país, dois sistemas”. Pois bem. Ao que parece, os burocratas do Partido Comunista Chinês devem ter achado este prazo demasiado longo e resolveram mostrar os dentes. E só não violaram o acordo com os britânicos antes por falta de condições.

Agora, valendo-se de sua pujança econômica e do seu poderio militar incrementado nos últimos anos, a China já não se sente mais tolhida pela chamada comunidade internacional para dar vazão aos seus ímpetos liberticidas. Ao fazer o que tem feito com Hong Kong, e como tem feito, o regime de Pequim dá mostras de que se despiu de pudores e não mais receia eventuais sanções externas.

Em junho de 2020, o governo chinês fez aprovar no Congresso Nacional do Povo uma draconiana lei de segurança nacional que passou a punir com pena de prisão perpétua qualquer honconguês que se manifeste contrariamente aos desígnios de Pequim. Atos de oposição ao regime, ou a mera defesa da liberdade na ilha, passaram a ser tratados como “terrorismo”, “separatismo” ou “conluio com forças externas”, algo próximo da alta traição.

Após atacar a liberdade de expressão dos honcongueses, este ano foi a vez de a China avançar sobre o sistema político-eleitoral local. Em maio, o presidente Xi Jinping sancionou uma alteração na Lei Básica, a “Constituição” honconguesa, que mudou substancialmente o sistema eleitoral vigente na ex-colônia britânica. Pequim passou a ter poder de veto sobre todas as candidaturas a cargos eletivos na ilha por meio da instalação de um “Comitê Revisor”, cuja principal atribuição não é outra se não avaliar quão “patriota” é determinado candidato, uma espécie de teste de submissão ao regime.

Isto feito, o Partido Comunista Chinês achou que era a hora de fulminar o que ainda restava de imprensa livre e independente em Hong Kong. Há cerca de uma semana, o governo chinês determinou o congelamento das contas bancárias do jornal Apple Daily, um dos mais lidos no território e um dos últimos jornais críticos à política expansionista da China que ainda eram publicados. Além da asfixia financeira, forças leais ao regime invadiram instalações do periódico e prenderam repórteres e editores como parte de uma ação coordenada para acabar com toda e qualquer dissidência política em Hong Kong.

A bem da verdade, o Apple Daily já vinha sofrendo com a queda de suas receitas publicitárias – muitos anunciantes foram coagidos pela ditadura chinesa a deixar de publicar no jornal. Além disso, seus jornalistas eram alvo de diuturnas campanhas de difamação. Não poucas vezes o jornal foi alvo de ataques com bombas incendiárias. Ainda assim, o Apple Daily vinha lutando para, com relativo sucesso, levar informação aos cidadãos honcongueses. O congelamento de seus ativos, no entanto, foi o golpe fatal que levou a direção do jornal a anunciar o encerramento de suas atividades. Milhares de pessoas fizeram longas filas para comprar a última edição do jornal.

“Percebemos que a China está no controle. Na prática, a soberania sobre Hong Kong é chinesa, por mais que países como o Reino Unido e os Estados Unidos contestem suas ações”, disse ao Estado o professor de relações internacionais da ESPM-SP, Alexandre Uehara.

Para os cidadãos de Hong Kong, o Apple Daily sempre foi muito mais do que um jornal. Foi um bastião das liberdades na ilha. Um veículo com este poder simbólico não poderia mesmo escapar incólume das garras do dragão chinês.

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