O FMI e o voo de galinha

Fundo aponta de novo baixo potencial de crescimento econômico do País

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2021 | 03h00

Ao elevar para 5,3% a previsão de crescimento econômico do Brasil em 2021, o Fundo Monetário Internacional (FMI) alinhou-se à projeção do mercado. A estimativa anterior, divulgada em abril, apontava uma expansão de 3,7%. A revisão é explicada principalmente pela surpresa positiva do primeiro trimestre, quando o Produto Interno Bruto (PIB) superou por 1,2% o dos três meses finais de 2020. No cenário revisto, o desempenho brasileiro continua inferior àquele indicado para a economia global e para as grandes categorias de países avançados, emergentes e latino-americanos. O ministro da Economia, Paulo Guedes, insiste em qualificar a retomada brasileira como uma recuperação em V. Mas a descrição se aplica ainda mais adequadamente a outras economias, com destaque para a China (8,1%), os Estados Unidos (7%), o Reino Unido (7%) e o México (6,3%). Os dados são das Perspectivas Econômicas Mundiais (World Economic Outlook).

As economias avançadas, segundo o FMI, devem crescer 5,6% neste ano e 4,4% no próximo. São taxas elevadas para países já desenvolvidos. Esse desempenho, 0,5 ponto superior ao estimado em abril, é atribuído a dois fatores principais, o avanço da vacinação e a manutenção do apoio fiscal iniciado em 2020 como resposta à pandemia. Esses envolvem cerca de US$ 4,6 trilhões para aplicação em ações econômicas e de saúde neste ano e no futuro próximo. Em contrapartida, nas economias emergentes e em desenvolvimento a maior parte das ações anticrise expirou no ano passado. É o caso evidente do Brasil.

Qualquer brasileiro informado conhece os detalhes omitidos no documento do FMI. Já no ano passado o governo reduziu as medidas de sustentação econômica e de apoio aos pobres. Essas ações foram suspensas no primeiro trimestre e parcialmente retomadas a partir de abril, mas sem derrubar o enorme desemprego. O relatório menciona o aperto monetário, com elevação de juros, iniciado no Brasil e em vários emergentes, num esforço para conter as pressões inflacionárias. Hungria, México, Rússia e Turquia também são citados na exemplificação.

Os autores do estudo recomendam cautela no uso dessas políticas. O novo surto inflacionário, argumentam, pode ser passageiro, e seria um erro, nesse caso, comprometer a recuperação da economia com uma forte elevação dos juros.

Os economistas do FMI poderiam, se quisessem avançar nos detalhes de cada país, apontar a política recente do Banco Central do Brasil (BC) como exemplo de cautela. Os aumentos de juros foram apresentados, até agora, como normalização “parcial” da política monetária, calculada para manter algum estímulo aos negócios. Mas, diante da evolução dos preços, tem ficado difícil aceitar, no Brasil, a ideia de uma pressão “temporária”. Dirigentes do BC mostrarão na próxima semana se mantêm o diagnóstico favorável. Em caso positivo, elevarão os juros básicos de 4,25% para 5%. No mercado, muitos apostam num aumento de 1 ponto porcentual.

A avaliação da economia brasileira pelos técnicos do FMI fica mais clara, no entanto, quando se leva em conta o crescimento previsto para o próximo ano: 1,9%, taxa muito inferior àquelas previstas para os países avançados (4,4%), para os emergentes e em desenvolvimento (5,2%) e para os latino-americanos e caribenhos (3,2%). A retomada brasileira é vista como voo de uma galinha.

Essa percepção é mantida há vários anos por economistas do mercado brasileiro e de instituições internacionais. Com baixo investimento produtivo, escassez de mão de obra qualificada, tributos pouco funcionais e baixa integração global, o Brasil é visto como incapaz de sustentar por mais de um ou dois anos um crescimento igual ou superior a 3%.

Para 2022, a mediana das projeções do mercado aponta crescimento de 2,10%. A visão dos técnicos do FMI coincide, em vários pontos, com a percepção dos brasileiros. Sem um claro projeto de crescimento e dominada pelos objetivos eleitorais do presidente Jair Bolsonaro, a atual política econômica é uma garantia de continuidade da aerodinâmica de galinha.

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