O fundo do poço peruano

Com credibilidade desintegrada, Castillo escapa de novo impeachment, mas pouco tem a oferecer para superar o caos

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2022 | 03h00

Apesar dos avanços econômicos, há 20 anos o Peru vive uma crise marcada pela desintegração dos partidos tradicionais, o choque entre o Legislativo e o Executivo e a desmoralização da classe política. Nos últimos cinco anos a crise se tornou aguda. Foram cinco presidentes. Os peruanos que em 2021 apoiaram a candidatura independente do sindicalista e professor rural Pedro Castillo, adotado pelo partido marxista-leninista Peru Libre, deram-lhe uma vitória apertada no segundo turno porque desejavam mudanças profundas. E conseguiram. Infelizmente, para pior.

A história recente do Peru é uma lição de como promover o progresso economicamente – e como dilapidá-lo politicamente.

O país é o segundo maior produtor de cobre do mundo. Entre 2001 e 2016, a inflação e a dívida mantiveram-se baixas e o grau de investimento, alto. A economia cresceu cerca de 5,6% ao ano, a linha de pobreza caiu de 60% para 21% e a distribuição de renda melhorou.

Mas os governos falharam em diversificar a economia além da mineração e investir em educação, inovação, infraestrutura e mais inclusão. Mais grave foi a ganância das elites políticas, envolvidas em grossos esquemas de corrupção. Então veio a recidiva: o que deveria ser uma sadia terapia anticorrupção perverteu-se em uma febre antipolítica. A eleição de Castillo, inexperiente em cargos eletivos ou executivos, foi um grito por justiça social, mas, sobretudo, contra a corrupção. O fracasso foi retumbante.

Em oito meses, foram quatro gabinetes, quatro primeiros-ministros, três ministros de Relações Exteriores e dois de Economia – um recorde histórico. Em meio a acusações de corrupção, sua aprovação despencou de 38% para 25% – outro recorde. Sua base aliada acaba de evitar a abertura de um segundo processo de impeachment.

A boa notícia é que as coisas poderiam estar muito piores. A má é que não há perspectiva de melhora.

Se a economia tem mostrado resiliência e o mercado, relativa calma, não é pela competência de Castillo, mas por sua incompetência. Incapaz de promover propostas radicais, como a estatização das mineradoras ou uma Constituição totalitária, doravante será ainda menos. Mas tampouco se vislumbra saídas ao impasse.

Ele poderia renunciar, mas isso o exporia à Justiça. Um golpe militar é, felizmente, improvável. O Congresso é fragmentado e tem baixíssima credibilidade. Se os parlamentares aquiescem à catastrófica administração, é por sobrevivência: recusar os gabinetes de Castillo lhe daria condições de fechar a Casa; um impeachment os obrigaria a disputar novas eleições.

Mas o Peru não pode se debater no caos por mais quatro anos. A história latino-americana ensina que a instabilidade prolongada excita aventuras autocráticas. A menos que Castillo consiga construir uma coalizão além das amarras de sua base radical, os congressistas precisam privilegiar os interesses nacionais e oferecer ao eleitorado um recomeço. Pesquisas indicam que de metade a três quartos dos peruanos desejam novas eleições. O Peru ainda tem uma maioria moderada. É hora de ela se fazer ouvir. 

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