O futuro ameaçado

O lento avanço da produtividade pode comprometer o futuro do País

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2021 | 03h00

A lenta evolução da produtividade do trabalho no Brasil, numa época de grandes e irreversíveis mudanças nos sistemas de produção baseados no uso cada vez mais intenso de tecnologias apoiadas em inteligência artificial e robótica, entre outras características, pode deixar o País ainda mais atrasado em relação ao resto do mundo e especialmente na comparação com seus principais concorrentes internacionais.

O expressivo crescimento da produtividade do trabalho na indústria de transformação brasileira – medida pela relação entre o volume produzido e a quantidade de horas trabalhadas – de 8% no terceiro trimestre de 2020 em relação aos três meses anteriores é, sem dúvida, auspicioso, pois mostra resistência e rápida capacidade de recuperação de um setor vital da economia. Mas, como observou a Confederação Nacional da Indústria (CNI) ao anunciar o resultado, esse crescimento é um movimento de natureza conjuntural, assim como tinha sido conjuntural a queda acentuada no segundo trimestre por causa da pandemia de covid-19.

As projeções para todo o ano são de um avanço de menos de 1% da produtividade do trabalho industrial, talvez de 0,9%, bastante próximo do crescimento pífio registrado em anos anteriores (0,8% em 2018 e 0,6% em 2019).

Para a transformação da economia brasileira, com o objetivo de inseri-la de maneira competitiva na cadeia global de produção, o avanço seguro e expressivo da produtividade do trabalho não pode depender apenas do uso mais intenso dos recursos existentes nem do esforço de cada trabalhador, como tem sido.

A melhora precisa sustentar-se na qualificação adequada dos trabalhadores, o que exige sua preparação para atender às novas exigências do mercado de trabalho, bem como na modernização e ampliação do estoque de capital, baseadas na modernização de máquinas, mudanças nos sistemas de gestão e investimentos.

Óbvias há anos, essas transformações se tornaram vitais diante dos novos desafios trazidos pela chamada Indústria 4.0. Ela marcaria a quarta revolução industrial, caracterizada pelo emprego de tecnologias avançadas como inteligência artificial, robótica e internet das coisas. Essas tecnologias estão mudando as formas de produção, bem como o modelo de organização das grandes corporações industriais.

Novas exigências do mercado, marcadas pela visão mais abrangente da questão ambiental, de sua parte, estão forçando grandes grupos industriais a rever seus processos produtivos, sua linha de produtos, a distribuição geográfica de suas unidades, entre outras mudanças. Dificuldades estruturais ou conjunturais das economias em que atuam igualmente podem induzir processos de mudanças nos grandes grupos de atuação global. Deixar de produzir num país ou substituir a linha de produtos por razões estratégicas pode fazer parte dessas transformações.

O anúncio da saída da Ford do Brasil é apenas um exemplo mais evidente, para os brasileiros, dessas mudanças. Toda a indústria automobilística mundial está, de alguma forma e com variada intensidade, repensando seu futuro.

A oferta de ambiente saudável para negócios, de infraestrutura ampla e eficiente e de mão de obra adequadamente preparada seria fator decisivo para as economias nacionais atraírem e reterem modernos sistemas produtivos, que impulsionariam seu crescimento e melhorariam a qualidade de vida da população. Infelizmente, o Brasil tem pouco a oferecer nesse campo.

Estudo da CNI concluiu que o Brasil está em penúltimo lugar, num grupo de países selecionados, no que se refere à competitividade. Esta é medida por vários fatores, como sistema tributário, oferta de crédito, sistema educacional, infraestrutura e produtividade do trabalho.

Quanto à produtividade, o avanço tem sido lento, exasperantemente lento, há vários anos. É como se o Brasil parecesse condenado a exibir baixo nível de capital humano – baixa escolaridade e elevado analfabetismo funcional. Até quando?

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