O futuro do comércio de serviços

Os serviços geram mais de um terço da produção econômica mundial

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

27 de dezembro de 2019 | 03h00

A transformação das economias agrárias do século 19 em economias industriais foi tão rápida e disruptiva que acabou indexada pela historiografia e pelo imaginário popular como uma “Revolução Industrial”. Desde o século 20, as economias industriais passam por uma transformação igualmente profunda e até mais rápida: a “Revolução dos Serviços”. Hoje os serviços geram mais de um terço da produção econômica mundial, atraem dois terços dos investimentos estrangeiros diretos e respondem por quase dois terços dos empregos nos países em desenvolvimento e quatro quintos nos desenvolvidos. No século 21, muitos serviços que antes não eram comercializáveis de um país a outro por causa da necessidade da presença física de seus agentes podem, graças à rede digital, ser prestados como se não houvesse fronteiras. É o início de uma nova globalização: após a globalização do comércio agropecuário e do industrial, a globalização do comércio de serviços.

Como este comércio evoluirá? Como pode contribuir para um desenvolvimento inclusivo? E quais modalidades de cooperação devem ser fomentadas? Para subsidiar as respostas a Organização Mundial do Comércio (OMC) promoveu um estudo sobre o Futuro do comércio de serviços.

O comércio de serviços é o setor que mais cresce no mercado internacional. Desde 2011, enquanto o comércio de bens cresceu 1% ao ano, o de serviços cresceu o triplo, 3%. Em 1970 ele cobria menos de um décimo do comércio global. Em 2040 estima-se que representará mais de um terço.

Alguns serviços, como táxis e hotéis, ainda que possam ser radicalmente transformados pela rede digital (Uber, Airbnb), só podem ser prestados localmente. Porém outros, como varejo, desenvolvimento de softwares, diversos procedimentos terceirizáveis, estão sendo “deslocalizados” e “globalizados” numa escala que pode superar mesmo as cadeias multinacionais de bens industrializados. A eliminação das distâncias afeta até serviços relacionados à medicina (informações, diagnósticos, análises e mesmo cirurgias), educação (ensino a distância) ou entretenimento (Netflix, Spotify).

A exposição de muitos setores antes regionalizados à competição global é um dos fatores que explicam o rápido crescimento na produtividade de serviços como finanças, telecomunicações, informação ou saúde. Assim como as revoluções do transporte e das comunicações na segunda metade do século 20 reduziram o custo dos bens entre as fronteiras, a digitalização está reduzindo o custo do comércio de serviços.

Entre 2000 e 2014 estima-se que o comércio de serviços levou a um crescimento médio de 6,3% do PIB per capita para 148 economias. Segundo um cálculo da OMC, computando resultados como melhoria da eficiência dos serviços, redução de custos e aceleração do crescimento, os ganhos em bem-estar resultantes da abertura ao comércio de serviços são calculados entre 2% e 7%.

As tecnologias digitais afetarão ainda mais o comércio de serviços no futuro, reduzindo custos, borrando a distinção entre bens e serviços e conectando empresas e consumidores em todo o planeta. São tendências que intensificarão a importância dos fluxos de dados, propriedade intelectual e investimento em infraestrutura digital. 

Mas, à medida que a tecnologia atua para abrir e integrar os mercados - expondo áreas antes protegidas pela barreira física -, há o risco de que os governos atuem para restringi-los e fragmentá-los. Segundo a OMC, a abertura internacional ao comércio de serviços tem sido comparativamente menos bem-sucedida do que foi a comercialização internacional de bens no século passado. Por isso, as discussões atuais entre os membros da Organização estão focadas sobretudo em aspectos regulatórios, especificamente sobre a adequação dos regulamentos domésticos às modalidades previstas no Acordo Geral sobre Comércio nos Serviços; aspectos do mercado de serviços relacionados ao comércio eletrônico; e os elementos relevantes da facilitação de investimentos. Entrar nesse debate já é pôr um pé no futuro.

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