O G-20 ante as crises globais

Sem compromissos mais sólidos, ‘divergência’ entre ricos e pobres se intensificará

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

19 de julho de 2021 | 03h00

O G-20, formado pelas principais potências mundiais e países de todos os continentes, responde por 63% da população do planeta e 87% de sua receita. Em certa medida, é o que a humanidade encontrou de mais próximo a um governo mundial. Em uma emergência planetária, esperava-se que o encontro de suas autoridades financeiras no último dia 9 se traduzisse em progressos significativos para os desafios globais do momento: vencer o vírus, alavancar a recuperação econômica e conter as mudanças climáticas. O progresso houve, mas foi insuficiente, especialmente em um aspecto crucial: a restauração da confiança e da cooperação entre os países ricos e pobres.

O avanço mais significativo foi a ratificação de um piso global para a tributação das multinacionais. O quadro vinha sendo articulado há uma década pela OCDE e foi ratificado pelo G-7 em junho, mas havia dúvidas sobre a participação de potências como China e Índia. O acordo corrigirá disfunções e anacronismos do sistema internacional – particularmente acentuados com a expansão dos negócios digitais –, permitindo mais controle da sonegação, da evasão fiscal e da operação dos paraísos fiscais. 

Também significativo foi o apoio a uma nova alocação de Direitos Especiais de Saque, o instrumento monetário criado pelo FMI para completar as reservas dos países. O valor de US$ 650 bilhões é o maior na história do FMI. Se bem distribuído aos países pobres – e não de acordo com o peso econômico de cada país, como de hábito –, ele pode ser realmente “uma injeção no braço do mundo”, como disse a diretora do FMI, Kristalina Georgieva.

Georgieva também elogiou o reconhecimento por parte do G-20 da necessidade de aprimorar a capacidade global de reação a ameaças sanitárias e de regular o mercado de carbono para conter as mudanças climáticas. Mas aqui os resultados foram mais voláteis.

O surpreendente sucesso da comunidade científica no desenvolvimento das vacinas garantirá uma recuperação mais rápida do que a prevista. O FMI estima um crescimento global de 6% em 2021. Contudo, “a divergência entre as economias está se intensificando”, notou Georgieva. “O mundo está diante de uma recuperação em duas vias”, mais rápida para os ricos, bem menos para os pobres.

Por isso, o fato de o Grupo não ter engendrado um mecanismo para acelerar a imunização global é não apenas frustrante, mas contraproducente. Nas condições atuais, as crianças dos países ricos serão vacinadas antes da maioria dos adultos do mundo. A motivação para isso é emocional. Racionalmente – do ponto de vista epidemiológico e econômico – é injustificável. A suscetibilidade das crianças a contrair e transmitir o vírus, ou a desenvolver a doença, é comprovadamente irrisória. Mas uma pandemia é por definição uma ameaça global e, enquanto não for globalmente erradicado, o vírus continuará a se espalhar e se alterar nos grotões mais pobres, sacrificando vidas e empregos, com o risco de retornar aos países ricos em variantes resistentes às vacinas.

Até junho, o programa da OMS para distribuição de tratamentos e vacinas registrava uma carência de US$ 16,8 bilhões. O FMI estima que a vacinação dos adultos do mundo custaria US$ 50 bilhões. Isso é um milésimo da receita anual dos países ricos e 0,1% dos gastos públicos com a covid-19. Se até meados de 2022 60% da população de cada país fosse vacinada, isso geraria um retorno de US$ 9 trilhões até 2025 – além de salvar meio milhão de vidas em 2021.

Se o grupo falhou em acelerar a saída de uma emergência aguda e palpável, como a pandemia, ainda menos promissora é a perspectiva para a emergência crônica e difusa das mudanças climáticas. A precificação do carbono segue em suspensão e não se avançou na promessa de mais de uma década de fornecer US$ 100 bilhões para financiar as transições climáticas nos países pobres.

Se compromissos mais sólidos não forem conquistados num futuro próximo, a “divergência” entre ricos e pobres advertida por Georgieva se intensificará – mas o seu impacto será sentido por todos. 

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