O golpe de Trump

Comitê da Câmara que investiga a invasão do Capitólio por extremistas trumpistas dá ao caso o nome correto

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2022 | 03h00

O comitê da Câmara dos Representantes (deputados) dos EUA que investiga a invasão do Capitólio (sede do Legislativo americano) em 6 de janeiro de 2021 por uma multidão de enfurecidos seguidores do então presidente Donald Trump deu ao episódio o nome correto: tratou-se de uma tentativa de golpe.

Não se pode relativizar o que houve naquele tenebroso episódio. É preciso que haja punição exemplar para os que, a pretexto de defender a democracia, violentam justamente as instituições que a sustentam, como foi o caso da turba de vândalos que, sob o comando incontestável de seu líder Trump, inconformado com sua derrota eleitoral, tentou reverter na marra o resultado das urnas.

As cenas de militantes pró-Trump enfrentando a polícia e adentrando a sede do Congresso dos EUA, até o plenário, no momento em que os congressistas se reuniam para confirmar a vitória de Joe Biden, evidenciaram as ameaças que pairam sobre as instituições democráticas − mesmo na maior potência econômica do planeta.

Nos EUA, a resposta dessas mesmas instituições democráticas foi rápida. Horas após a invasão do Capitólio, já de madrugada, os congressistas retornaram ao prédio para oficializar o resultado das urnas. Confirmaram, assim, a maioria conquistada por Biden no colégio eleitoral, sacramentando a derrota do presidente Trump, que buscava a reeleição. Na semana seguinte, a Câmara dos EUA aprovou o impeachment de Trump, acusado de incentivar a invasão do Capitólio. Um mês mais tarde, porém, com Biden já devidamente no poder e Trump longe da Casa Branca, o Senado rejeitou o pedido.

Na última quinta-feira, o comitê da Câmara que investiga o ataque deu início a uma série de audiências públicas sobre o caso. Formado por democratas e republicanos, o comitê apresentou vídeos e depoimentos coletados ao longo de 11 meses de apuração. O material é vasto: inclui mais de mil testemunhas, desde servidores de alto escalão da Casa Branca e assessores da campanha eleitoral de Trump até familiares do ex-presidente, como a filha mais velha, Ivanka, o genro Jared Kushner e o filho Donald Trump Jr. O relatório final deverá ser divulgado em setembro e encaminhado ao Departamento de Justiça dos EUA, que decidirá sobre eventuais indiciamentos.

As primeiras conclusões, entretanto, são categóricas: o então presidente Trump é acusado de estar no centro de “uma conspiração de várias etapas com o objetivo de derrubar o governo eleito”, nas palavras do presidente do comitê, o democrata Bennie Thompson. Para a republicana Liz Cheney, vice-presidente da comissão, Trump convocou e reuniu uma multidão para “acender a chama deste ataque”. Ela declarou: “Donald Trump se foi, mas sua desonra permanecerá”.

As declarações ganham ainda mais peso com o fato de que foram transmitidas ao vivo, no horário nobre da TV americana. O objetivo, óbvio, foi dar conhecimento ao maior número possível de americanos que sua democracia, malgrado as tentativas de Trump e de seus seguidores de arruiná-la, segue vigorosa. Talvez os extremistas continuem a acreditar em suas mirabolantes teorias e estejam dispostos a causar mais confusão, mas o fato é que o regime que eles tentam subverter está mostrando sua força.

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