O IPCA e o coronavírus

Sem demanda por causa da paralisia da economia, preços tendem a cair

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

09 de maio de 2020 | 03h00

Com a queda de 0,31% em abril, a segunda maior da história, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que baliza a política de metas inflacionárias do Banco Central (BC), acumula alta de 0,22% no primeiro quadrimestre do ano e de 2,40% em 12 meses. Esta última variação já está abaixo do piso de tolerância da política de metas do BC, de 2,5% (a meta é de 4,0% em 2020), e tende a cair nos próximos meses. O próprio BC já admite que a inflação de 2020 pode ficar em 2,0%. Analistas do mercado financeiro, porém, preveem nova redução do IPCA em maio, provavelmente maior, de modo que já surgem projeções de que a inflação no ano ficará abaixo de 2%.

De algum modo, a paralisia da produção em diversos segmentos, a suspensão de boa parte da atividade comercial, a brutal queda da demanda de serviços, a redução dos deslocamentos de pessoas e mercadorias, consequências do isolamento social necessário para conter a expansão da pandemia, se expressam numericamente na inflação. A retomada será lenta, tanto mais lenta quanto mais se mostrarem atabalhoadas, e irresponsáveis em certos casos, as autoridades que deveriam coordenar as ações em nível nacional para salvar vidas e conter outros efeitos da pandemia.

Por causa da emergência sanitária decorrente do avanço da covid-19, a coleta presencial de preços por técnicos do IBGE nos locais de venda foi suspensa no dia 18 de março. Desde então, os preços têm sido coletados em sites da internet, por telefone ou por e-mail. Isso pode gerar alguma distorção. Além disso, com o confinamento de boa parte da população em suas residências e a mudança radical de alguns hábitos de consumo, as despesas familiares que compõem a estrutura do IPCA devem ter igualmente mudado bastante.

A despeito de eventuais imprecisões, os dados do IBGE mostram que a redução de 2,66% dos gastos das famílias com transportes foi a principal responsável pela queda do IPCA em abril, menos intensa apenas que a registrada em agosto de 1998 (de -0,51%). Essa redução se deveu principalmente à diminuição de 9,59% dos preços dos combustíveis.

Curiosamente, o IPCA de abril foi empurrado para cima pelos preços das passagens aéreas, que subiram 15,1%. Esses preços foram coletados em fevereiro, antes, portanto, do impacto do coronavírus. As medidas de enfrentamento da pandemia provocaram adiamentos, cancelamentos e redução do número de voos, o que deve aparecer com maior nitidez nos índices deste e dos próximos meses.

Sobre alguns segmentos, o impacto da crise sanitária enfrentada pelo País foi brutal. A interrupção das linhas de montagem de praticamente todas as empresas automobilísticas por causa do isolamento social fez a produção de veículos cair 99,3% em abril, na comparação com a de um ano antes. Em relação ao mês anterior, a produção de abril caiu 99%, como informou a Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).

Foram fabricadas apenas 1,8 mil unidades em abril, o menor resultado para um mês desde o início da série histórica da Anfavea, em 1957. Nem mesmo em períodos de greve a produção foi tão baixa, lembrou o presidente da Anfavea, Luiz Carlos Moraes. Há um esforço das montadoras para preservar empregos, disse ele. Mas ressaltou que, se a crise se estender, ficará mais difícil evitar demissões. “Quanto mais coordenada for a gestão da saúde e da recuperação da economia, mais chance vamos ter (de manter empregos)”, ressaltou Moraes.

O isolamento social, que levou ao fechamento de lojas de produtos considerados não essenciais, teve outro efeito imediato: o salto nos estoques do comércio e da indústria. Pesquisa do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV) constatou que 24,9% das indústrias e 20% das empresas varejistas têm estoques excessivos.

É uma porcentagem alta, o que tende a tornar mais difícil a normalização dos negócios quando a crise sanitária começar a ser superada.

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