O isolamento de Putin

Com anos de atraso, o mundo despertou para a ameaça de Putin. Seu isolamento é crescente, mas não há sinais de que será dissuadido. É preciso se preparar para o pior

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2022 | 03h00

A Assembleia-Geral da ONU aprovou, com 141 votos, uma resolução demandando que a Rússia “retire imediata, completa e incondicionalmente todas as suas forças militares do território da Ucrânia”. Os votos contrários – de Bielorússia, Coreia do Norte, Eritreia e Síria – mostram o grau de isolamento diplomático do presidente russo, Vladimir Putin, mas as 35 abstenções – incluindo China e Índia – mostram também que esse isolamento está longe de ser completo.

A resposta internacional foi mais dura e coordenada do que Putin esperava. A Rússia está sendo obliterada do sistema financeiro global; diversos países fecharam o espaço aéreo a aeronaves russas; países europeus promoveram uma reversão histórica em sua política de segurança; e a Otan ganhou um novo senso de propósito.

Na Ucrânia, o Exército russo tampouco conquistou a vitória rápida e fácil que Putin esperava. Os ucranianos têm sido mundialmente celebrados por seu exemplo de patriotismo e coragem. Domesticamente, a dissidência também dá mostras de valentia e a elite russa dá sinais de desconforto.

A substantiva reação internacional contrasta com o histórico de leniência com as seguidas agressões russas nos últimos anos, do assalto cibernético à Estônia, em 2007, passando pela guerra na Geórgia, em 2008, até a ocupação da Crimeia, em 2014.

Mas antes tarde do que nunca. Ainda assim, nada permite supor que Putin buscará uma solução antes de derramar muito sangue, muito menos recuará. Ao contrário. Imerso em uma atmosfera de paranoia e orgulho, acuado a ponto de vislumbrar talvez pela primeira vez riscos à sua sobrevivência, tudo indica que ele escalará o conflito. As ameaças nucleares são um sinal tenebroso. Sintomaticamente, no mesmo dia em que a ONU aprovou sua resolução, os russos capturaram a primeira grande cidade ucraniana, Kherson, e intensificaram os bombardeios no sul e no norte. A Rússia reconheceu baixas significativas e, como retaliação, ataques indiscriminados a civis são mais do que prováveis.

A comunidade internacional tem um triplo desafio: manter vivas, por escassas que sejam, as possibilidades de resoluções pacíficas; responder energicamente à provável escalada; e reduzir os riscos de um choque entre a Rússia e a Otan.

Nas negociações com a Ucrânia, a delegação russa não deu sinais de recuo nas demandas maximalistas que desmembrariam ainda mais o território da Ucrânia e eliminariam de facto a sua independência.

Internamente, uma mistura de fracasso militar, angústia das elites e revolta da população poderia levar a uma deposição de Putin, como aconteceu com Nikita Kruchev após a crise dos mísseis em Cuba. Mas, se é difícil vislumbrar esse desfecho a médio prazo, a curto é praticamente impossível. Ainda assim, os generais russos deveriam ser advertidos de que condenações por crimes de guerra ainda podem ser evitadas se forem capazes de neutralizar Putin.

O representante chinês na ONU disse que a resolução não considerou “a urgência de se promover uma resolução política e avançar esforços diplomáticos”. A China deveria ser conclamada a ser consistente com suas palavras, pressionar por um cessar-fogo e estabelecer limites claros à sua aliança com Putin, sob pena de pôr em risco seus negócios com a Europa e os EUA.

Por mais doloroso que seja para a economia mundial, o Ocidente deve estar preparado para impor um embargo sobre o petróleo e o gás da Rússia, que respondem por mais de 40% das suas receitas. Entre as opções militares, é preciso resistir a manobras que podem levar a um confronto direto entre a Rússia e a Otan – como a instauração de uma zona de proibição de voo.

Só os ucranianos podem dizer até onde estão dispostos a lutar por sua soberania. Mas eles não podem ser deixados sós. A ONU precisa mobilizar mais recursos humanitários. A Europa, em especial, tem a missão de abrir os braços aos refugiados. O aceno à integração ao bloco é um apoio moral aos negociadores ucranianos. Sobretudo, os ucranianos precisam de mais e melhores armas para se defender. Com pouco mais de uma semana de conflito, eles mostraram que têm determinação para isso, mas, contra o poderio russo, só vontade não basta.

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