O jogo aberto dos juros

Banco Central promete evitar alta da taxa por longo tempo, se o governo se comportar

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2020 | 03h00

Não haverá alta de juros, promete o Banco Central (BC), enquanto a inflação seguir abaixo da meta, as expectativas de preços continuarem bem ancoradas e o governo mantiver o compromisso com a seriedade fiscal. Num cenário de muita incerteza, muita confusão em Brasília e alguma esperança de crescimento em 2021, a política monetária fornece uma rara e preciosa sinalização. A taxa básica de juros será mantida em 2%, o nível mais baixo da série histórica, se aquelas condições persistirem. Na melhor hipótese, muito improvável, um corte pequeno ainda poderá ocorrer. Com essa promessa, o Comitê de Política Monetária (Copom), formado por diretores do BC, oferece ao mercado uma segurança extra, um caminho previsível por tempo indeterminado. É a forward guidance, traduzida oficialmente como prescrição futura.

A sinalização do Copom é especialmente importante, neste momento, por causa do nevoeiro no horizonte econômico. A insegurança é um dos temas centrais da ata da última reunião do comitê. Não se sabe como ficará o crescimento quando terminarem as políticas especiais. A incerteza sobre o ritmo da economia, principalmente a partir do fim do ano, “permanece acima da usual”, segundo os diretores do BC.

A mesma insegurança é revelada por economistas do setor privado e da academia. A ajuda emergencial, muito importante para a reação do consumo a partir de maio, é reduzida nos meses finais do ano e está programada para se esgotar em dezembro. Além disso, o desemprego continua muito alto. Poderá haver alguma redução até o Natal, mas o quadro pouco mudará.

Além disso, a melhora do emprego no segundo semestre normalmente é revertida no começo do ano. E depois? Qualquer previsão sobre 2021 é arriscada, embora o mercado projete um crescimento econômico de 3,50%, no próximo ano, depois de uma contração próxima de 5% em 2020.

Toda projeção é bem mais incerta que em outros anos. Não se conhecem planos do governo para sustentar a recuperação nem se sabe como ficarão os ajustes e reformas. O ministro da Economia, Paulo Guedes, promete manter a responsabilidade fiscal, mas o presidente Jair Bolsonaro mostra-se mais empenhado em conseguir a reeleição. Essa preocupação pode colidir com as tentativas de conter o déficit fiscal e a expansão da dívida pública.

Enfim, dois temas continuam dominando as manifestações do ministro Guedes sobre o futuro da economia – a redução ou eliminação dos encargos sobre a folha salarial e a recriação, com nova cara, da CPMF. Nada disso esclarece como ficará o crescimento depois da recuperação inicial, puxada pelas medidas emergenciais.

Sem todos esses detalhes, os membros do Copom ressaltam as dúvidas sobre o ritmo da atividade em 2021. Além disso, continuam realçando a importância da gestão das contas públicas para a manutenção dos estímulos monetários. O componente central desses estímulos continua sendo a taxa básica de juros, mantida em 2% na última reunião.

Com isso, a política monetária pode ter atingido, ou quase, o limite de afrouxamento. Nem sequer se sabe, admitem os membros do comitê, se o mercado financeiro, depois de atuar com juros altos por muitos anos, pode absorver sem problemas uma taxa tão reduzida. Não se pode excluir o risco de volatilidade de alguns ativos. Qualquer novo corte da Selic pode ser arriscado também por essa incerteza.

Apesar da insegurança, o Copom mantém os 2% e promete evitar uma alta enquanto persistirem certas condições – inflação prospectiva abaixo da meta, expectativas ancoradas e seriedade na gestão das contas públicas. Cumprido esse compromisso, o Tesouro continuará operando com juros toleráveis. Sem novos sustos, empresários e consumidores seguirão dispondo de crédito mais acessível que em períodos anteriores.

Não basta, no entanto, a boa vontade do Copom. Se o mercado perceber sinais inquietantes, os juros subirão. Esse aviso aparece na ata, com outras palavras. Talvez o ministro da Economia possa transmitir o alerta ao presidente. Fará diferença? Isso é outra história.

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