O jornalismo e o Congresso

Pesquisa indica que os parlamentares têm consciência da abissal diferença entre jornalismo e 'fake news'

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2019 | 03h00

O principal meio de acesso à informação por deputados federais e senadores são os jornais, revela a Pesquisa sobre Consumo de Informação dos Congressistas, realizada pela Associação Nacional dos Funcionários do Banco do Brasil e pelo DataPoder360. Mais do que uma boa notícia para a mídia impressa, esse dado revela que, nesses tempos de enxurradas de fake news, os parlamentares estão preocupados em obter informação de fontes qualificadas – o que é extremamente alvissareiro para a qualidade do debate público.

Realizada em junho, a pesquisa entrevistou 40 senadores e 257 deputados, respeitando a proporção das siglas no Congresso Nacional. Na pergunta a respeito dos principais meios de comunicação utilizados para se manter informado, os jornais foram os mais citados (20%), seguido de televisão (17%) e portais de notícias (16%). As redes sociais, mencionadas por 15% dos entrevistados, apareceram em quarto lugar.

Esses números são especialmente relevantes por força da renovação ocorrida no Poder Legislativo. A pesquisa indica que a atual geração de congressistas, resultado direto do desejo de mudança manifestado pela população nas eleições do ano passado, não está apenas conectada com as redes sociais e preocupada com as reações que lá são publicadas. De fato, 75% dos congressistas avaliam como importante ou muito importante a repercussão dos temas e matérias nas redes sociais para a sua atuação política e a decisão do seu voto. No entanto, o ponto fundamental é que, como a pesquisa mostra, os parlamentares da atual legislatura não estão apenas nas redes sociais. Utilizam as redes sociais, mas, quando se trata de buscar informação, eles utilizam prioritariamente meios de comunicação que fazem jornalismo.

Não corresponde à realidade, portanto, a ideia de que, nos tempos atuais, com tantas redes sociais, o jornalismo estaria se tornando menos relevante para o debate público. Em vez de sombrearem o horizonte do jornalismo, como se as fake news pudessem fazer algum tipo de concorrência aos meios de comunicação, a difusão e a circulação de notícias mentirosas apenas ressaltaram a importância da informação confiável, apurada com método e rigor. E, como indica a pesquisa, os parlamentares têm consciência da abissal diferença entre jornalismo e fake news.

O fato de que os congressistas utilizem o jornalismo para se informarem tem muitas consequências positivas para o País. Em primeiro lugar, há a possibilidade de que o debate público seja pautado pela realidade, nessa contínua busca pela verdade dos fatos. É muito perigoso para a cidadania que as leis e as políticas públicas sejam baseadas em diagnósticos distorcidos, informações equivocadas, preconceitos ou visões reducionistas. Por exemplo, como seria a votação de uma reforma da Previdência se a maioria dos deputados estivesse desinformada e pensasse que o atual sistema de aposentadorias e pensões não é deficitário? Notícias falsas podem gerar decisões políticas desastrosas.

Outro aspecto é que o jornalismo, em contínua busca pela verdade dos fatos, também pode se equivocar, mas, sendo de fato jornalismo, estará sempre pronto a retificar o eventual equívoco. Esse critério fornece uma base sólida e honesta para a negociação e a formação de maiorias e consensos. O olhar objetivo sobre a realidade é o fundamento mais firme para o diálogo. O conhecimento da realidade, por sua vez, não conduz ao conflito. O que leva à beligerância é a informação enviesada e distorcida. O que leva ao clima de acirramento e polarização é a fake news inventada deliberadamente para agredir quem pensa de forma diferente.

Só há democracia onde há liberdade de imprensa. Entre outros aspectos, a população só tem condições de exercer de fato seus direitos políticos se puder buscar livremente fontes de informação confiáveis e independentes. Da mesma forma, os representantes eleitos só poderão exercer bem sua função pública se tiverem acesso a fontes de informação confiáveis e independentes. Ou seja, a presença do jornalismo no Congresso é saudável sintoma da democracia.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.