O Mapa da Aprendizagem

O grupo de brasileiros no bloco de 33% dos alunos de todo o mundo com nível socioeconômico mais alto obteve uma nota média de mais de 100 pontos acima dos 33% de alunos com nível socioeconômico mais baixo

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2019 | 03h00

Ao divulgar o Mapa da Aprendizagem, um estudo dos números da última edição do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), que é promovido a cada três anos pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) desde o final do século 20, o Instituto Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede) chamou a atenção para dois importantes problemas. O primeiro foi a perda de posições do Brasil no ranking mundial, entre 2015 e 2018. O segundo problema é que a desigualdade entre estudantes ricos e estudantes pobres no Brasil continua sendo uma das maiores do mundo.

Em 2018, o Pisa avaliou mais de 600 mil alunos de 79 países, dos quais 17,5 mil foram brasileiros, sendo a maioria matriculada em escolas públicas. Segundo o trabalho do Iede, que é patrocinado pela Fundação Lemann e pelo Itaú BBA, os dados do Pisa revelaram que, nas três áreas avaliadas (leitura, matemática e ciências), o grupo de brasileiros no bloco de 33% dos alunos de todo o mundo com nível socioeconômico mais alto obteve uma nota média de mais de 100 pontos acima dos 33% de alunos com nível socioeconômico mais baixo.

O índice de nível socioeconômico leva em conta se a família de cada estudante avaliado possui carro, se tem um quarto para estudar só e escolaridade e ocupação dos pais. Quanto mais alto é o nível de renda da família, maiores são os estímulos que os filhos recebem para estudar, maior é seu vocabulário e maior é o acesso a livros e bens culturais. E quanto maior é a escolaridade da mãe, melhor tende a ser o desempenho escolar dos filhos. No Brasil, por exemplo, 91,19% dos alunos de famílias com rendas mais altas têm mães formadas com o diploma do ensino médio. Nas famílias de menor renda, só 38% das mães concluíram esse ciclo educacional.

Levando em conta os 79 países avaliados pelo Pisa, a desigualdade brasileira foi a quinta maior do ranking em matemática e a terceira maior em leitura e em ciências, o que reflete, evidentemente, o problema da má distribuição de renda do País. Segundo o diretor do Iede, Ernesto Faria, a qualidade de ensino e o conhecimento estão destinados a uma pequena elite. “A condição social é muito determinante na formação do aluno. Há um trabalho bem feito para alguns alunos. Não é que não existam bons colégios ou professores excelentes. O grave e inadmissível é que o bom ensino ainda está atrelado a onde você nasce, à região da cidade em que mora, aos vestibulinhos que selecionam alguns e excluem a maioria e às caras mensalidades do sistema privado de ensino”, diz Faria.

Quando a comparação é feita por região do Brasil, os mesmos problemas também aparecem. Uma das regiões menos desenvolvidas do Brasil, a Nordeste também é a que apresenta maior desigualdade socioeconômica, seguida pela Centro-Oeste. Já a Região Sul, economicamente mais desenvolvida, também é a que mais se destacou nas áreas do conhecimento avaliadas pelo Pisa.

Uma das perguntas feitas aos alunos, na avaliação, indaga se eles já repetiram de ano. Segundo o Pisa, o Brasil está entre os dez países com o maior porcentual de estudantes que já repetiram de ano no ensino fundamental. Ao avaliar os números, o Mapa da Aprendizagem do Iede revela que 25% dos estudantes de ensino fundamental do nível socioeconômico mais baixo repetiram de ano pelo menos uma vez. Entre os alunos de nível socioeconômico mais alto, o índice foi de 8,8%.

O estudo do Iede só reforça o que os especialistas em educação, demografia e economia afirmam: enquanto as autoridades educacionais continuarem insistindo em modismos pedagógicos, relegando para segundo plano a correlação entre aumento da escolaridade e melhoria das condições econômicas das famílias pobres, o Brasil não conseguirá diminuir as distâncias sociais nem formar o capital humano de que precisa para passar a níveis mais sofisticados de produção.

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