O mercado de trabalho após a pandemia

Em vez de investir em educação, País pode ficar atrelado a programas de transferência de renda

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2021 | 03h00

À medida que o ritmo de vacinação vai aumentando no País, os economistas vão fazendo cada vez mais pesquisas sobre o que acontecerá com o mercado de trabalho quando a pandemia passar. O mais recente levantamento foi feito por professores e pesquisadores do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getulio Vargas no Rio de Janeiro, e aponta duas tendências preocupantes.

Por um lado, eles temem que volte a acontecer o que já ocorria antes da pandemia. Ou seja, o crescimento de ocupações de baixa qualificação, que foi o tipo de trabalho mais afetado durante a pandemia. Se isso ocorrer, a desigualdade social e econômica poderá se aprofundar ainda mais no Brasil. Para afastar esse risco é preciso formular um amplo programa de requalificação profissional, com o foco em novas habilidades. “O problema da economia brasileira não é, necessariamente, que ela não gera emprego. É que o emprego gerado é de baixa produtividade, pouca perspectiva salarial e precário em termos de proteção social”, afirma o economista Fernando Veloso, lembrando o que ocorre no mercado de trabalho informal. “É preciso trazer para o debate a importância das linguagens de programação que são as novas formas de alfabetização. Quem chegar ao mercado de trabalho sem esse conhecimento pode ter dificuldade de se inserir em novos postos”, complementa a pesquisadora Janaína Feijó. 

Por outro lado, os economistas do Ibre também receiam que o País fique atrelado a um modelo de programas sociais de transferência de renda, como o Bolsa Família, relegando para segundo plano a formulação de projetos consistentes de valorização de uma educação pública de qualidade e com equidade, para tentar reduzir a acentuada queda do nível de aprendizagem de adolescentes e jovens ocorrida durante o longo período em que as escolas ficaram fechadas.

Enquanto os alunos do ensino privado continuaram estudando e suas perspectivas quanto ao mercado de trabalho foram menos afetadas, com os alunos das escolas públicas aconteceu justamente o inverso. “Essa é a preocupação: a gente cair nisso de achar que programas sociais podem resolver os problemas do País estruturalmente”, diz Luiz Guilherme Schymura, diretor do Ibre.

Com base nos números de 2012 a 2019 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os pesquisadores e professores do Ibre analisaram as ocupações emergentes no Brasil e detectaram que os padrões do mercado de trabalho não são iguais aos internacionais. Entre nós, apesar do crescimento de ocupações ligadas aos setores de tecnologia, saúde e redes de computadores, o ranking continua sendo liderado por gerentes de serviço, vendedores e, principalmente, ambulantes. Já em termos mundiais a tendência é de que o mercado de trabalho cresça basicamente nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática, dada a necessidade de mão de obra altamente qualificada por parte da Revolução Industrial 4.0. Por causa do avanço da tecnologia, ocupações em serviços de alimentação, atividades administrativas, atendimento ao consumidor e vendas tendem a ter menos demanda e algumas profissões estão desaparecendo, por terem se tornado obsoletas.

Decorre daí a necessidade de amplos programas de requalificação e de ensino técnico e profissionalizante, alertam os pesquisadores e professores do Ibre. Baseando-se num levantamento feito pela empresa de consultoria McKinsey em oito países que, juntos, detêm 62% do Produto Interno Bruto global, eles afirmam que, quando a pandemia passar, 100 milhões de trabalhadores poderão mudar de ocupação até 2030, por causa das novas condições tecnológicas de produção de bens e serviços.

Esse alerta não poderia ter vindo em melhor hora. Como a educação é um determinante fundamental do crescimento econômico, investir em requalificação e em ensino profissional é o grande desafio que o Brasil terá pela frente, dadas as mudanças que ocorrerão no perfil do trabalho quando a pandemia passar.

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