O motor doméstico da indústria

Com ajuda emergencial e crédito, as famílias consomem e ajudam a indústria a se mover

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2020 | 03h00

Mais dispostas a gastar, as famílias voltam às compras e continuam puxando a recuperação da indústria. A produção industrial cresceu 8% em julho e completou três meses consecutivos de aumento, mas ainda sem anular a queda de 27% acumulada em março e abril. A melhora foi generalizada, com números positivos em todas as grandes categorias econômicas e em 25 dos 26 ramos pesquisados. O motor da reativação tem sido o consumo, alimentado pelo auxílio emergencial pago aos trabalhadores e pelo aumento do crédito. A manutenção do auxílio até dezembro, mesmo com a redução de R$ 600 para R$ 300 mensais, deverá continuar impulsionando a recuperação.

A fabricação de bens de consumo, como eletrodomésticos, alimentos, vestuário, calçados, medicamentos e automóveis, cresceu 9,3% em julho. Foi uma expansão menor que a de bens de capital, como caminhões, máquinas e equipamentos industriais. Nesta categoria o avanço foi de 15%, um indício aparente de retomada vigorosa do investimento em modernização e ampliação da capacidade produtiva. A notícia é muito boa, sem dúvida, mas o quadro fica mais claro com uma perspectiva mais longa.

Em julho, a produção de bens de capital ainda foi 15,4% inferior à de um ano antes. A fabricação de bens de consumo foi 7,7% inferior à de julho de 2019. Quando se comparam os números acumulados no ano o contraste fica ainda mais claro; de janeiro a julho as indústrias de bens de capital produziram 20,3% menos que nos sete meses correspondentes do ano anterior. As de bens de consumo fabricaram 14,8% menos.

Este é, portanto, o segmento responsável pela dinamização da indústria de bens intermediários – insumos incorporados nos produtos finais, como borrachas, plásticos, peças e componentes. Em julho o segmento de bens intermediários produziu 8,4% mais que em junho e 1,4% mais que um ano antes. Em nenhuma outra grande categoria a comparação com julho de 2019 foi positiva. Mas isso se explica pela demanda final de bens de consumo, principalmente de bens não duráveis (como alimentos e produtos de higiene e limpeza) e semiduráveis (como roupas e calçados).

Essa perspectiva mais longa ajuda a entender, também, o salto mensal da indústria de bens duráveis, com crescimento de 42% em julho, explicável principalmente pela fabricação de automóveis. Mas o setor automobilístico ficou quase paralisado em março e abril.

Por isso, mesmo acumulando expansão de 443,8% – um número incomum – em três meses consecutivos, a categoria de bens duráveis ainda ficou, em julho, 15,2% abaixo do nível de fevereiro. Em julho, as montadoras produziram 36,2% menos que um ano antes, segundo a Anfavea, a associação do setor. De janeiro a julho o total produzido foi 48,3% inferior ao dos mesmos meses de 2019.

Neste ano a indústria automobilística suportou ao mesmo tempo duas crises severas, a interna e a dos vizinhos, incluída a Argentina, principal destino de suas exportações. Outras indústrias também perderam vendas externas e hoje dependem quase exclusivamente de um fraco mercado interno.

Mesmo com a reação a partir de maio, a indústria geral acumulou nove meses consecutivos, iniciados em novembro, de produção inferior à de um ano antes. Quando a pandemia chegou, a indústria já ia muito mal.

Sem roteiro desenhado pelo governo, a recuperação prossegue. Voltando ao nível de fevereiro, a indústria completará a recuperação do último tombo, mas continuará prisioneira de uma crise iniciada muito antes. Em cinco dos nove anos entre 2011 e 2019 o desempenho foi negativo.

A boa notícia, por enquanto, é a manutenção da ajuda emergencial até dezembro. O auxílio mensal, o crédito e alguma possível melhora no emprego ajudarão a manter o consumo. Em agosto o número de famílias endividadas (67,5%) foi 0,1% maior que em julho, segundo a Confederação Nacional do Comércio. Entre as famílias endividadas, 21,4% afirmaram ter mais de metade da renda mensal comprometida com dívidas. Esse indicador caiu pelo terceiro mês – um dado positivo. É preciso olhar para além de dezembro.

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