O novo acordo norte-americano

Com o USMCA, Trump reforça sua imagem diante do eleitorado norte-americano

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

01 de fevereiro de 2020 | 03h00

No momento em que o Senado norte-americano julga o processo de seu impeachment, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, alcançou uma vitória política importante no campo das relações externas, ao assinar o novo acordo comercial entre seu país, o México e o Canadá. O acordo, conhecido pela sigla USMCA, substitui o Nafta (Acordo de Livre Comércio da América do Norte), de 1994, que Trump considerava “o pior acordo de comércio” já assinado pelos Estados Unidos, por ser, nas suas palavras, danoso aos interesses do país e de seus cidadãos. O novo texto, ao contrário, constitui “um acordo avançado e de ponta, que protege, defende e serve as grandes pessoas de nosso país”, disse em tom triunfante Trump, como óbvio candidato à reeleição, durante cerimônia realizada na Casa Branca. Nenhum representante da oposição democrata foi convidado para o ato.

As negociações do novo acordo comercial começaram em 2017, no primeiro ano do mandato de Trump. As partes haviam chegado a um entendimento básico em 2018, quando os chefes de governo dos três países assinaram a versão básica do acordo, que então foi submetido à apreciação dos respectivos Congressos.

O Legislativo mexicano aprovou o texto em dezembro do ano passado. No mesmo mês, após resistências da oposição democrata, que detém maioria na Casa, a Câmara dos Representantes dos Estados Unidos aprovou, com alterações, o novo acordo por uma votação expressiva, com 385 votos a favor e 41 contra. A líder democrata na Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, não deixou de observar na ocasião que “o que o presidente assinará (o que ocorreu na quarta-feira passada) é bem diferente do que o que nos enviou”. O texto foi aprovado no Senado norte-americano no dia 16 de janeiro por 89 votos a 10. O Congresso canadense ainda precisa votar o acordo.

O Nafta, assinado durante o primeiro mandato do presidente democrata Bill Clinton, destinava-se a criar uma área de livre comércio que fortalecesse as relações entre os três países por meio da retirada de barreiras e outros entraves ao comércio e à circulação de bens e serviços entre eles. Criado para enfrentar a recém-formada União Europeia e as nações da Ásia cuja presença no comércio mundial crescia rapidamente, o Nafta permitiu reduzir as tarifas no comércio entre os países que o compunham e não tinha prazo de duração.

Trump, porém, o acusava de ter impelido empresas norte-americanas a transferir sua produção para o México, em razão de menores custos operacionais e trabalhistas no país vizinho, beneficiando assim os trabalhadores mexicanos. O USMCA, promete Trump, fará o inverso, protegendo os trabalhadores de seu país e gerando bilhões de dólares para sua economia.

A indústria automobilística, que mais visivelmente foi afetada pelo Nafta, é um dos principais focos também do novo acordo. Entre outros pontos, o novo texto amplia de 62,5% para 75% a porcentagem mínima de componentes americanos e mexicanos nos veículos produzidos nos países signatários. Como proteção aos trabalhadores, o USMCA estabelece que de 40% a 45% dos carros saídos das linhas de montagem da região devem ser produzidos por trabalhadores com salário de pelo menos US$ 16 por hora.

Ao contrário do Nafta, que não tinha prazo de vigência, o novo acordo expirará em 16 anos e deve ser revisto a cada 6 anos, podendo ou não ser prorrogado. Como tem feito em outras negociações comerciais, o governo de Donald Trump conseguiu impor a seus parceiros grandes vantagens para os Estados Unidos. O Canadá, por exemplo, dará maior acesso a seus mercados para frangos, perus e ovos originários dos Estados Unidos; o México, a certos tipos de queijos americanos.

A despeito do óbvio uso político que Trump lhe deu, o USMCA tem grande relevância para a economia mundial, pois envolve um fluxo comercial estimado em US$ 1,2 trilhão por ano.

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