O oásis das contas externas

A equipe econômica pode concentrar-se na tarefa de arrumação das contas fiscais, incluída a reforma da Previdência, sem se preocupar com o risco próximo de uma crise cambial

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2019 | 03h00

O Brasil enfrentou sem grandes danos a piora das condições globais, desde o ano passado, e suas contas externas continuam sendo uma espécie de oásis, uma área de tranquilidade numa economia nacional dominada pela estagnação e pela incerteza. Nos 12 meses terminados em março o País absorveu R$ 88,51 bilhões líquidos de investimento direto. Isso bastaria para cobrir mais de seis vezes o buraco de US$ 13,68 bilhões nas transações correntes. A cobertura continua ocorrendo com muita folga. Em março, ingressaram US$ 6,85 bilhões, enquanto o déficit ficou em US$ 494 milhões, número bem inferior ao de um ano antes, de US$ 686 milhões. A boa situação do balanço de pagamentos é uma bênção para o governo. A equipe econômica pode concentrar-se na tarefa de arrumação das contas fiscais, incluída a reforma da Previdência, sem se preocupar com o risco próximo de uma crise cambial.

O principal pilar das transações correntes continua sendo o superávit na balança comercial de bens, isto é, de produtos básicos, manufaturados e semimanufaturados. Houve saldo positivo de US$ 9,33 bilhões na balança comercial no primeiro trimestre deste ano. Isso compensou parcialmente os saldos negativos de US$ 6,69 bilhões em serviços e de US$ 10,82 bilhões na movimentação de rendas.

Somadas, essas contas compõem as transações correntes. O saldo conjunto, nos primeiros três meses, foi um déficit de US$ 8,18 bilhões, 9,1% inferior ao de janeiro a março do ano passado. O investimento direto, de US$ 21,11 bilhões, foi mais que suficiente, como tem sido há alguns anos, para cobrir o saldo negativo.

O oásis, no entanto, é imperfeito. Os fatos por trás desses números ficam menos bonitos quanto examinados mais de perto. Exemplo: o superávit comercial acumulado neste ano, de US$ 9,33 bilhões, foi 15,33% menor que o do primeiro trimestre do ano passado. Dois fatores se destacam: a menor exportação de minérios, por causa do desastre de Brumadinho, e a redução das vendas de manufaturados para a Argentina, efeito da crise no país vizinho.

É natural a importância do mercado argentino para o Brasil, mas o comércio entre os dois países tem refletido mais que a vizinhança e a parceria entre dois países. Também reflete a acomodação da indústria, principalmente da automobilística. Tudo isso é consequência de erros graves de política industrial. Um esforço maior em busca de inovação e de competitividade permitiria diversificar mercados e depender menos de um parceiro, mesmo importante.

Uma das explicações para a redução do déficit na conta de serviços é a menor despesa com viagens. O total gasto no primeiro trimestre, de US$ 4,43 bilhões, foi 12,37% menor que o de um ano antes. O dólar mais caro deve ser parte da resposta. Mas a maior cautela das famílias, diante do desemprego e da incerteza econômica, também pode ter afetado as decisões. A redução do déficit em transportes, de US$ 1,59 bilhão entre janeiro e março de 2018 para US$ 1,33 bilhão neste ano, provavelmente reflete o menor dinamismo dos negócios.

Apesar da demanda interna muito fraca, as importações de bens continuaram crescendo, de US$ 43,24 bilhões no primeiro trimestre do ano passado para US$ 43,52 bilhões neste ano. As exportações totais de bens diminuíram de US$ 54,26 bilhões para US$ 52,86 bilhões. Que acontecerá, se a economia ganhar dinamismo e aumentarem as importações de matérias-primas, bens de consumo e bens de capital?

Se o descompasso entre compras do exterior e vendas externas persistir, o saldo comercial tenderá a encolher, o déficit em serviços e rendas aumentará e o conjunto das transações correntes deverá requerer um financiamento muito maior. Seria bom o governo já se preocupar com essas questões e com medidas para aumento da competitividade. Seria bom, também, evitar atritos mais graves com parceiros comerciais. O presidente Bolsonaro e o ministro de Relações Exteriores esqueceram esse último ponto em relação à China e a países muçulmanos.

 

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