O pânico e a ladainha cor-de-rosa

Guedes entoou outra vez a ladainha do País que decola enquanto o mundo desce

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2020 | 03h00

Com o pânico dominando os mercados, o dólar de novo disparou, as ações despencaram e as negociações foram interrompidas duas vezes, ontem de manhã, na Bolsa de São Paulo. No começo da tarde o Ibovespa acumulava queda de 19%, enquanto o preço do petróleo seguia em baixa e os danos econômicos da nova pandemia continuavam a espalhar-se. Mas o Brasil tem uma dinâmica própria, insistia o ministro da Economia, Paulo Guedes, entoando em Brasília, mais uma vez, a ladainha do país decolando enquanto o mundo desce.

Os mercados já estavam em pânico antes de ser declarada oficialmente, na quarta-feira, a pandemia do novo coronavírus, e assim continuaram ontem. Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump havia anunciado medidas severas, como a proibição de voos comerciais, nos dois sentidos, entre seu país e a Europa continental. O governo americano também já havia enumerado medidas de apoio a trabalhadores e a empresas com recursos orçamentários. Remédios econômicos também eram anunciados na Europa.

Em Bruxelas, o vice-presidente da Comissão Europeia, Valdis Dombrovskis, prometeu apresentar na manhã de hoje medidas para atenuar ou prevenir os problemas fiscais e econômicos do surto de coronavírus. “Precisamos apoiar empresas, principalmente pequenas e médias, e trabalhadores autônomos afetados pela crise”, argumentou.

Essa operação de socorro coincide pelo menos em parte com a ação cobrada dos governos pela presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde. A resposta aos efeitos econômicos da pandemia deve consistir principalmente, segundo a presidente do BCE, em medidas de apoio fiscal à atividade econômica. A maior parte dos governos da zona do euro tem condições de usar recursos orçamentários para animar os negócios.

Antes do novo apelo de Lagarde, os dirigentes do BCE haviam informado suas novas decisões de política monetária. Mantiveram a taxa de depósito (-0,50%) e a de refinanciamento (nula), mas prometeram baixar o custo do refinanciamento de operações de longo prazo e, além disso, adicionar 120 bilhões de euros, até o fim do ano, à compra de bônus em circulação no mercado. Nos Estados Unidos, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) anunciou a intenção de injetar nos mercados US$ 1,5 trilhão, começando ontem mesmo com US$ 500 bilhões.

No Brasil, enquanto o ministro da Economia repetia a história feliz de um país em decolagem, funcionários do Tesouro tentavam atenuar o pânico, reagindo à pressão no mercado de juros futuros com leilões de recompra e de venda de títulos. O objetivo era “dar suporte” às negociações com títulos públicos, “garantindo o bom funcionamento desse e de outros mercados correlatos”, segundo comunicado oficial.

Reconhecendo, apesar de tudo, o risco de algum problema, o ministro da Economia chamou a atenção para o potencial dos bancos estatais. O ministro mencionou a capacidade de empréstimos da Caixa, do Banco do Brasil e do BNDES, de pelo menos R$ 207,8 bilhões. Mas bastará dispor desse dinheiro?

Em situações de crise e muita insegurança, governos costumam dar um rumo, apontar um horizonte e indicar facilidades a empresários e consumidores, para estimulá-los a se mexer e a tomar riscos. Sem isso, quantos estarão dispostos a se endividar? Para quê? Se o Banco Central (BC) decidir novo corte de juros na reunião de seu comitê político, na próxima semana, e se houver sinais de repasse desse corte ao tomador final, a procura de dinheiro talvez aumente. O pessoal do BC deverá decidir, no entanto, num quadro fiscal especialmente confuso, com possível piora das contas federais. Será difícil evitar a piora, se for executado o gasto adicional de R$ 20 bilhões decorrente do aumento dos Benefícios de Prestação Continuada. Contra o veto presidencial, congressistas mantiveram esse aumento, diante de um Executivo inerte. Mas o País decola. Quem garante é o ministro.

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