O PCC na mira dos EUA

Ordem de Biden indica que caminho para acabar com poder de grandes organizações criminosas é a asfixia financeira

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2021 | 03h00

Ao longo de quase 30 anos de atividade, o Primeiro Comando da Capital (PCC) se tornou uma das mais perigosas organizações criminosas do mundo. A longevidade do PCC é justamente o primeiro ponto a ser destacado em qualquer análise sobre a atuação do bando. Uma organização criminosa só opera por tanto tempo – a ponto de se espraiar pelas mais variadas esferas dos setores público e privado – se contar, no mínimo, com a vista grossa de muitos agentes do Estado que deixaram de cumprir seus deveres de ofício, sabe-se lá a que preço. O PCC, portanto, é a face visível de um problema muito mais grave.

O segundo ponto que chama a atenção é o poderio bélico e econômico que o bando conseguiu amealhar em todo esse tempo. A importância do PCC para o funcionamento das engrenagens do tráfico internacional de drogas chegou a tal ponto que o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, decidiu incluir a organização em uma lista de 25 atores (indivíduos e organizações) que desempenham papel capital no crime organizado mundial. Há poucos dias, Biden assinou uma ordem executiva autorizando o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos a impor sanções econômicas a estrangeiros, membros ou não de organizações criminosas, suspeitos de envolvimento com o tráfico internacional de drogas. O PCC é a única quadrilha brasileira incluída na lista, ao lado de outras pessoas e organizações da China, do México e da Colômbia. O Ministério da Justiça e da Segurança Pública, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e a Polícia Federal foram notificados da decisão da Casa Branca horas antes do anúncio oficial em Washington.

Na divulgação da lista, o Tesouro americano informou que “o PCC surgiu em São Paulo na década de 1990 e abriu caminho sangrento para o domínio por meio do tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, extorsão e assassinatos de aluguel”. O órgão destacou ainda a abrangência das atividades do bando, que, além de operar em toda a América do Sul, “realiza operações que alcançam os Estados Unidos, a Europa, a África e a Ásia”.

A partir de agora, suspeitos de integrar o bando poderão ter bens e recursos financeiros bloqueados nos Estados Unidos, além de serem impedidos de realizar transferências bancárias, empréstimos e financiamentos por meio de instituições financeiras americanas.

Com longa experiência no enfrentamento de poderosas organizações criminosas internacionais, o governo americano mostra que, de fato, a asfixia financeira é a forma mais eficiente de minar a força de cartéis e quadrilhas como o PCC. Evidentemente, o enfrentamento policial, quando necessário, e a prisão de membros da organização são e sempre serão necessários. Mas, para acabar com o bando, só interrompendo o fluxo de capitais que alimenta toda a cadeia criminosa.

O Brasil tem ido nesta direção, como mostram as Operações Caixa Forte e Caixa Forte 2, da Polícia Federal (ver editorial A asfixia financeira do PCC, 4/9/2020). É importante avançar. Esse é o caminho para acabar de uma vez com essa ameaça à segurança dos brasileiros.

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