O perigo do ‘modo eleição’

Incerteza cresce e ações de Bolsonaro dificultam combate da inflação pelo BC

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2021 | 03h00

Levar a inflação à meta de 3,5% em 2022 é a prioridade do Banco Central (BC), prometeu o presidente da instituição, Roberto Campos Neto. Para isso a política monetária será apertada e os juros ficarão mais altos enquanto isso for necessário. O objetivo mais amplo, agora, é garantir o equilíbrio econômico de longo prazo, explicou Campos Neto em webinar promovido pelo Council of Americas. Também é claro o recado implícito: abandona-se por algum tempo a ideia de estimular a retomada econômica por meio de uma política mais branda. Tentou-se, durante meses, manter esse estímulo e ao mesmo tempo frear a alta de preços. Não deu certo. As pressões inflacionárias foram mais fortes e mais persistentes do que se estimava.

Agora é indispensável, portanto, concentrar a atenção do BC em sua missão mais importante, a busca da estabilidade de preços. Em 2021 o jogo já está perdido. As projeções indicam inflação próxima de 7%, bem acima da meta (3,75%) e até do limite de tolerância fixado para este ano, de 5,25%. As estimativas para 2022 têm subido e apontam uma alta de preços em torno de 3,9%, já superior, portanto, à meta oficial (3,5%). Pode-se evitar esse desvio e para isso é preciso trabalhar duramente. Esse esforço já começou.

Passar mensagens é parte importante do trabalho do BC. O sucesso é obtido mais facilmente quando as expectativas do mercado – ou dos mercados – ficam bem ancoradas, como se diz no jargão da política monetária. Quando esperam inflação contida em nível tolerável, empresários e investidores podem planejar e conduzir suas atividades com maior segurança. Sem temor de preços em disparada, consumidores também contribuem para um ambiente ordenado. Mas o BC é apenas uma das fontes de sinalização.

A formação de expectativas depende também de outros fatores. Um dos mais importantes é a ação dos políticos, principalmente daqueles com poder para determinar o rumo da política econômica e a evolução das contas públicas. Quando as finanças do governo vão mal e – mais importante – quando há sinais de descontrole, o alarme soa e a formação de preços é afetada. A relevância dos fatores políticos tem sido evidenciada de forma assustadora no Brasil.

O quadro fiscal – cenário atual e prospectivo das contas públicas – é marcado pela insegurança. Sem partido e sem suporte programático, o presidente Bolsonaro depende, para seus objetivos, de uma base parlamentar volátil e fisiológica. Isso afeta a execução do Orçamento corrente, compromete o planejamento orçamentário do ano seguinte, descontrola os gastos e põe em risco os tetos legais das finanças públicas. Além disso, fórmulas são inventadas para acomodar ações eleitoreiras do chefe de governo, como, por exemplo, a improvisação de um novo Bolsa Família.

Com a economia no “modo eleição”, o mercado piora as estimativas das contas públicas, eleva as previsões de juros, aumenta as projeções de inflação, reduz as expectativas de crescimento econômico e opera, no dia a dia, com um câmbio sempre mais instável. As preocupações com a campanha eleitoral prematura foram apresentadas por analistas do setor financeiro a diretores do BC em reunião na quarta-feira passada. No mesmo dia, o professor Affonso Celso Pastore, ex-presidente do BC e hoje consultor, resumiu o cenário num diagnóstico sombrio: a euforia do mercado acabou e a perspectiva geral é muito ruim.

Em pronunciamento recente, o presidente do BC, Campos Neto, falou sobre a dificuldade de conter a inflação quando falta confiança na política fiscal. O realismo desse comentário tem sido confirmado, de forma assustadora, nos últimos dias, com a instabilidade na bolsa de valores, as preocupações embutidas na curva de juros, a insegurança cambial, com o dólar muito caro, e a disparada dos preços. Fatores externos também entram nas contas, mas Brasília é de fato a fonte principal de incertezas e temores. Quanto mais duradoura a insegurança, mais demorada é a redução do desemprego e mais prolongado o sacrifício das dezenas de milhões empobrecidos na crise.

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