O peronismo redivivo

Pressionado pelos kirchneristas, Alberto Fernandéz caminha para a radicalização

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2021 | 03h00

Atingido pela pandemia quando estava havia apenas três meses no governo, o presidente argentino, Alberto Fernández, foi rápido em adotar medidas sanitárias, renegociar as dívidas e promover auxílios de renda, logrando bons índices de popularidade ao longo de 2020. Mas nos últimos meses, com o recrudescimento da recessão, a alta taxa de mortalidade e escândalos no programa de imunização, a sua aprovação derreteu e Fernández fez o que se temia desde que foi indicado como candidato da coalizão peronista pela ex-presidente e atual vice-presidente, Cristina Kirchner. Pressionado pelas bases kirchneristas, ele acionou o botão de pânico: seu governo, cada vez mais sob o comando de facto de Kirchner, caminha a passos largos rumo à radicalização.

Fernández, que foi chefe de gabinete de Kirchner, venceu um combalido Mauricio Macri apresentando-se como um social-democrata pragmático disposto a promover a concórdia nacional. Mas, sob a pressão dos radicais peronistas orquestrada por Kirchner, avolumam-se as contradições entre este objetivo e os sinais emitidos pelo presidente.

Sem nunca chegar a apresentar uma agenda econômica propositiva, as políticas do governo se mostram crescentemente titubeantes. Essa gestão errática se manifestou em tentativas frustradas de estatizar a principal exportadora de grãos do país, congelar tarifas das telecomunicações ou aumentar impostos sobre a indústria. Kirchner tem cada vez menos pruridos em disparar queixas contra os “erros” do governo e “funcionários que não funcionam”, e, a cada dia, o presidente é constrangido a fazer novas concessões.

Logo após perder um aliado, o ministro da Saúde, Ginés Gonzáles Garcia, em razão do escândalo das “vacinas VIP” – em que diversas pessoas furaram a fila da vacinação –, Fernández foi forçado pelos kirchneristas a substituir sua ministra da Justiça, a moderada Marcela Losardo, por Martín Soria, notório crítico do Judiciário, pelo qual Kirchner se diz “perseguida”. Para não enfurecer os kirchneristas, o presidente tem adiado renegociações com o FMI, acenando temerariamente com um calote, e, para agraciar os aliados bolivarianistas de Kirchner, retirou a Argentina do Grupo de Lima, criado para buscar uma saída pacífica para a Venezuela.

Ainda mais emblemático foi o seu discurso anual ao Congresso. Em contraste com o discurso do ano passado, Fernández endossou o figurino tipicamente vitimista de Kirchner. Ao invés de tratar de medidas sanitárias e econômicas, o que se viu foi um presidente ocupado em atacar seus críticos, estimular a polarização e terceirizar responsabilidades. Assumindo inequivocamente a agenda kirchnerista, sua principal proposta foi de reformas na Justiça.

Cristina Kirchner responde a inúmeros processos, e sua ambição de instrumentalizar a Casa Rosada para salvaguardar a si e seus correligionários sempre foi indisfarçável. Nos últimos dias ela subiu o tom, acusando os juízes de “podres e perversos” que vivem “às margens do sistema”. Nesse compasso, Fernández propôs reformas de constitucionalidade duvidosa, como o “controle cruzado” do Judiciário por parte do Poder Legislativo; um “tribunal de garantias” (em tese para descongestionar as cortes, mas que na prática parece projetado para evitar que cheguem a elas ações contra políticos); ou a imposição do júri para delitos federais graves. “De certo modo”, observou em editorial o La Nación, “se trata de ressuscitar o frustrado projeto de ‘democratização da Justiça’, impulsionado pelo kirchnerismo em 2013, que foi qualificado como inconstitucional pelo tribunal máximo da Nação.”

Como resumiu a cientista política María Matilde Ollier, “vivemos em um sistema presidencialista que conta com um chefe de Estado sem carisma e sem poder, e cuja vice-presidente, por sua vez, possui ambos”. Assim, com sua agenda política condicionada pelos problemas pessoais de Kirchner, a Argentina vai à deriva, em uma atmosfera de insegurança jurídica, sem um plano econômico e com um presidente cada vez mais enfraquecido, errático e refém do populismo peronista.

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