O plantador de árvores

Ação obstinada de um cidadão legou à cidade de São Paulo o seu primeiro parque linear

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

10 de maio de 2021 | 03h00

A obstinação e o espírito público de um cidadão legaram à cidade de São Paulo o seu primeiro parque linear. Em 2003, Hélio da Silva, um gerente comercial de 70 anos, natural de Promissão, no interior do Estado, começou a plantar mudas de árvores nas margens do Rio Tiquatira, na Penha, bairro da zona leste da capital paulista. Dezoito anos depois, o que parecia ser apenas uma despretensiosa ação isolada de um morador incomodado com o abandono da área deu origem ao Parque Linear Tiquatira, uma floresta com mais de 33 mil árvores de 160 espécies, que se espalham por quase quatro quilômetros de extensão ao longo das duas margens do rio.

“O que fiz foi trazê-las (as árvores) de volta para cá. Podem não acreditar, mas, quando as trouxe, o solo as reconheceu e tudo se transformou. É lúdico (acompanhar) o negócio. Aqui era terra de ninguém e agora é isso aí”, disse seu Hélio, como é conhecido no bairro, ao Estado.

As árvores são quase todas nativas da Mata Atlântica. “Tem ingá, quaresmeira, babosa, jequitibá, aroeira, salsa, pau-d’alho”, disse. Sem conhecimento técnico formal, seu Hélio aplicou na plantação e conservação do parque que criou os conhecimentos que adquiriu em pesquisas na internet e em conversas com outras pessoas. “A cada 12 mudas plantadas, obrigatoriamente, uma tem de ser frutífera”, explica. O objetivo é atrair os pássaros.

E, de fato, eles vieram. De acordo com a Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente, no local já foram observadas 45 espécies de aves, incluindo três espécies endêmicas da Mata Atlântica, periquito-rico, teque-teque e tiê-preto. 

Hoje o Parque Linear Tiquatira – Engenheiro Werner Zulauf está consolidado, criado como tal por um decreto do ex-prefeito Gilberto Kassab, de 13 de agosto de 2008. Mas não foram poucas as dificuldades que seu Hélio teve de superar para ver suas árvores crescerem frondosas. Houve desde sabotagem de pessoas que arrancavam as primeiras mudas até ameaças de comerciantes que temiam que as copas das árvores ofuscassem seus estabelecimentos ou se aborreciam com a perda de uma área usada como estacionamento irregular. No entanto, nada foi capaz de deter o espírito de um cidadão que acreditava no bem maior que fazia a si mesmo e à sua comunidade.

O desprendimento e a obstinação de seu Hélio por plantar cada vez mais árvores podem ser medidos pela quantia de dinheiro do próprio bolso que investiu em terra, adubo, ferramentas e mudas. “Em um ano, foram R$ 29 mil. Em outro, R$ 32 mil. No início, era menos. Mas é melhor não calcular essas coisas”, disse o plantador de árvores.

A ação de um único cidadão contribuiu para mudar completamente a realidade do bairro onde mora. O crescimento do parque linear da Penha, segundo seu Hélio, levou à valorização dos imóveis na região, além de tornar a temperatura local um pouco mais amena. Seus vizinhos de bairro passaram a frequentar um local antes degradado para a prática de atividades físicas. De acordo com a organização do parque, cerca de 700 pessoas frequentam o local diariamente.

“Nada mais fiz do que retribuir o que a cidade de São Paulo, onde vivo há mais de 60 anos, me deu”, disse seu Hélio. Para além do impacto positivo local, sua ação serve como bom exemplo de cidadania e cuidado com o meio ambiente, em sentido amplo, para todos os paulistanos. Esse cuidado com a cidade não é uma prerrogativa exclusiva do poder público. Muito ao contrário, é uma responsabilidade de cada munícipe, no limite de suas possibilidades.

Evidentemente, são pouquíssimos os cidadãos que têm recursos financeiros para investir ao longo de anos em projetos como o de seu Hélio. Mas há uma infinidade de ações que independem de dinheiro para gerar efeitos positivos para a coletividade, a começar pela própria conservação de parques como o idealizado por ele. Rios urbanos, como o Tiquatira, sofrem com o descarte irregular de lixo, entulho e esgoto. Ademais, no curso de uma pandemia, o mero uso correto de máscara que se exige no parque já é sinal de civilidade e cuidado com o próximo que não custa mais do que a boa vontade de cada um.

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