O potencial produtivo dos jovens

O MEC não tem plano para multiplicar a oferta de cursos profissionalizantes

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

25 de dezembro de 2020 | 03h30

Tendo a pandemia prejudicado o aprendizado das crianças ao fechar as escolas, substituindo o ensino presencial pelo ensino virtual, as gerações de brasileiros nascidos nos últimos quatro a cinco anos poderão chegar ao mercado de trabalho, no futuro, com apenas 55% do seu potencial produtivo desenvolvido. Por isso, dificilmente conseguirão entrar no mercado formal de trabalho. 

A estimativa é do Banco Mundial. Diante da velocidade das transformações tecnológicas, que estão reconfigurando o mundo do trabalho, somente terão vez os jovens com formação especializada e capacitação técnica, diz o órgão, que acaba de aprovar um empréstimo de US$ 1 bilhão ao Brasil. A condição é que esse dinheiro seja destinado às famílias que estão na fila de espera do Bolsa Família. Segundo o Banco Mundial, essas famílias envolvem um total de 3 milhões de pessoas, muitas delas em situação de vulnerabilidade, necessitando de apoio continuado em 2021 e em 2022. 

Jovens sem remuneração básica terão remuneração mais baixa e, se encontrarem algum emprego, certamente será na economia informal, gerando menos benefícios para a sociedade, afirma – no mesmo sentido da advertência do Banco Mundial – o estudo As consequências da violação do direito à educação, feito pela Fundação Roberto Marinho e pelo Insper. Ele prevê que 17% dos brasileiros na faixa etária entre 15 e 17 anos não conseguirão concluir o ensino básico, o que corresponderia a um total de 575 mil jovens. “Esses jovens não são bens materiais, mas o principal e gigantesco ativo que um país possui”, dizem os responsáveis por esse estudo, Wilson Risolia, Ricardo Paes de Barros, Laura Machado e Juliana Leitão. 

Diante do impacto que esse problema poderá causar na ampliação da informalidade, no aumento da exclusão social e na elevação da criminalidade, a única saída seria uma oferta imediata de cursos profissionalizantes de curto prazo, diz Ricardo Henriques, diretor executivo do Instituto Unibanco, que apoia projetos de melhoria de gestão escolar elaborados por Estados e municípios. “Precisamos de uma blitz para o período de 2021 a 2023, uma vez que a expansão das empresas mais intensivas em tecnologia exigirá mais mão de obra técnica numa escala muito maior do que a gente tem”, afirma. 

As conclusões desses relatórios, estudos e opiniões sobre os gargalos do sistema educacional brasileiro são convergentes. O mesmo ocorre com as soluções que estão sendo propostas em caráter emergencial, para tentar evitar o cenário sombrio previsto para as novas gerações de brasileiros pelo Banco Mundial. A implementação dessas propostas, no entanto, exige uma articulação nacional que permita a ampliação em larga escala – e no menor prazo possível – de cursos profissionalizantes capazes de assegurar a formação técnica dos segmentos menos escolarizados da juventude brasileira. 

O problema é que, desde o início do governo Bolsonaro, o Ministério da Educação (MEC) encontra-se inoperante, em estado letárgico. Dirigido por ministros ineptos, mais preocupados com questões ideológicas do que com a formulação de políticas educacionais, eles simplesmente deixaram de exercer as funções de articulação. “A economia das instituições ensinou há décadas que, nas crises, é preciso mais coordenação. No caso da educação no Brasil ocorreu o contrário. O MEC saiu de cena. Não tenho bola de cristal, mas o cenário não é otimista”, afirma Ricardo Henriques. 

Apesar de o País ter se comprometido constitucionalmente a garantir o direito à educação de todos, sem distinção de origem, raça, sexo, cor e idade, o direito à educação está sendo violado, dizem os responsáveis pelo estudo da Fundação Roberto Marinho e do Insper. Segundo eles, o MEC continua sendo incapaz de compreender que a falta de articulação do sistema educacional significa desperdício de recursos escassos. “Optou-se por gastar com o sinistro do que fazer o seguro. No Brasil não se investe em educação, gasta-se”, concluem. No que têm, infelizmente, toda a razão. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.