O ‘povo’, segundo Lula

Resolução do PT reitera o autoritarismo da legenda. Além de deslegitimar o voto do eleitor em 2018, trata Lula como a encarnação do povo brasileiro

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2022 | 03h00

Em recente resolução, o Diretório Nacional do PT explicitou, com todas as letras, como enxerga a campanha eleitoral de Lula deste ano: será nada menos que o “movimento que devolverá a cadeira de presidente da República ao povo brasileiro”. Esse comportamento do PT não é uma novidade, tampouco deveria causar surpresa a quem acompanha a trajetória da legenda, mas isso em nada alivia sua gravidade. É uma atitude profundamente antidemocrática, que tenta, numa só tacada, deslegitimar as eleições passadas e alçar Lula à categoria de encarnação do povo brasileiro.

Pode-se discordar inteira e veementemente do atual governo federal, pode-se entender que Jair Bolsonaro deveria há muito ter sofrido um processo de impeachment, pode-se considerá-lo o pior presidente da República que o País já teve, mas há um fato incontornável: no segundo turno das eleições de 2018, numa votação limpa e absolutamente democrática, o então candidato do PSL obteve 57.797.847 votos, enquanto Fernando Haddad, do PT, recebeu 47.040.906 votos.

O necessário compromisso com o processo eleitoral conduz, portanto, a uma conclusão cristalina: foi o povo brasileiro, esse a que Lula da Silva aludiu, que elegeu a chapa Jair Bolsonaro e Hamilton Mourão. É o mesmo povo que antes havia escolhido Dilma Rousseff, Lula da Silva, Fernando Henrique e Fernando Collor, com os respectivos companheiros de chapa. Certamente, há muito o que lamentar em algumas dessas escolhas, mas isso não retira a legitimidade democrática de nenhuma das eleições passadas.

É próprio do autoritarismo deslegitimar as escolhas do eleitorado. É próprio do PT achar que só é democrático quando Lula – ou algum de seus postes – vence. Mas a democracia não funciona assim. É preciso respeitar, com todas as consequências, o vencedor das eleições. Ainda que não honre a cadeira de presidente da República, Jair Bolsonaro tomou posse no cargo em janeiro de 2019 de forma inteiramente legítima, conduzido pelo voto do eleitor.

Mas a resolução do PT não diz respeito apenas às eleições de 2018. Nela há outro aspecto nefasto, profundamente reducionista. É a ideia de que Lula da Silva seria a encarnação do povo brasileiro e da própria democracia. Para a legenda, devolver a cadeira de presidente da República ao povo brasileiro seria sinônimo de eleger o líder petista.

O alegado amálgama entre Lula e o povo brasileiro é de uma enorme arrogância antidemocrática. Reitera a profunda ignorância petista a respeito da democracia. Não há mitos, não há super-homens e, especialmente, não há representação antes do voto. O regime democrático é precisamente aquele que confere ao cidadão o direito de escolher quem o representará. Para o PT, o processo é justamente o inverso. Antes do voto, antes das eleições, antes de o eleitor sequer pensar em quem vai votar, o partido já definiu que o único representante possível do povo é Lula da Silva – e quem quer que vote contra Lula está automaticamente excluído do povo.

Como milhões de brasileiros sabem muito bem – basta ver o grau de rejeição ao petista nas pesquisas –, Lula não encarna o povo, e sim as veleidades hegemônicas do PT, em nome das quais vale assaltar a Petrobras, comprar deputados e sabotar os esforços de responsabilidade fiscal. O objetivo petista é transformar Lula da Silva numa espécie de líder indispensável e sempiterno.

A desvairada afirmação da resolução do Diretório Nacional do PT está longe de ser uma tese meramente teórica. Essa postura, que, no limite, iguala o partido a uma seita messiânica, está nos documentos internos e também no dia a dia da legenda, de suas lideranças e de sua militância. Tem sido cada vez mais comum, por exemplo, o discurso – a levar em consideração o tom com que é dito, a acusação – de que não votar em Lula nas próximas eleições equivalerá a desprezar a democracia e a ser conivente com os abusos do bolsonarismo.

Há outros nomes, outros partidos, outros modos de fazer política. Mas o PT quer impingir ao eleitor que o seu candidato é o único candidato da democracia e também o único capaz de entender o povo. E depois se queixam quando são chamados de autoritários.

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