O preocupante balanço do Enem

Tipo de prova aplicada no Enem 2021 deixou especialistas em ensino médio preocupados com o Enem de 2022

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2021 | 03h00

Apesar de ter transcorrido sem problemas, a segunda prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2021 mostrou o preço que os estudantes estão pagando pela gestão desastrosa do governo Bolsonaro na área educacional. Criado há 23 anos, o Enem é a principal porta de entrada nas universidades públicas. 

Como as autoridades educacionais passaram os últimos três anos tentando promover uma censura ideológica na prova, suprimindo questões que consideravam não alinhadas à pauta de valores conservadores defendida pelo presidente da República, elas dificultaram a renovação do Banco Nacional de Itens, que reúne as questões que compõem as provas. Atualmente, ele tem uma reserva de apenas 200 questões, um número limitado para abastecer uma prova do porte do Enem. 

Sem renovação, o Banco Nacional de Itens envelheceu e não acompanhou os fatos ocorridos nos últimos anos, como a eclosão da pandemia. Além disso, a preparação do Enem de 2021 foi afetada por uma crise interna no Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), que resultou no pedido de exoneração de 37 servidores que ocupavam os cargos de chefia na área técnica, por discordarem do presidente do órgão – o quinto nomeado pelo governo Bolsonaro desde 2019. 

Por todos esses motivos, as provas da segunda fase do Enem de 2021 acabaram sendo formuladas com base em textos retirados de sites ou de reportagens publicadas há mais de dois anos, o que as levou a se tornarem mais conteudistas, com questões diretas, que exigem menos interpretação e mais fórmulas dos estudantes. Embora tenham caído perguntas sobre dengue e o desastre ambiental em Mariana (MG), ocorrido em 2015, temas como coronavírus, vacinação e aquecimento global ficaram de fora. 

A prova de biologia, por exemplo, teve mais perguntas específicas sobre botânica do que sobre ecologia – tema que sempre prevaleceu no Enem. Na prova de física, uma das perguntas só poderia ser resolvida se os estudantes lembrassem de fórmula, o que jamais fez parte da tradição do Enem. Nunca, nos últimos anos, essa prova ficou tão distante das formuladas pelo vestibular da principal universidade do País, a Universidade de São Paulo (USP), que sempre optou por um exame mais atual, elaborado poucos meses antes da aplicação, levando em conta o contexto socioeconômico do País. 

Para os especialistas em ensino médio e para as ONGs do setor educacional, o Exame Nacional do Ensino Médio só sobreviveu nos três primeiros anos do governo Bolsonaro porque havia um estoque de perguntas no Banco Nacional de Itens, que praticamente se esgotou em 2021. Por isso, as provas aplicadas nos dois últimos domingos deixaram como saldo um alerta para a prova de 2022. Se esse banco não for urgentemente reabastecido de acordo com as regras que sempre prevaleceram na preparação das questões, sem interferência em conteúdo por parte de um governo preocupado em desmontar todo o conjunto de políticas públicas construído pelo País na área educacional ao longo das últimas três décadas, o Enem corre o risco de perder sua credibilidade.

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