O presidente, o vírus e o balanço

Insegurança gerada pelo presidente assusta investidores e prejudica o País

Notas & Informações, O Estado de S. Paulo

01 de junho de 2020 | 03h00

A crise permanente criada pelo presidente Jair Bolsonaro é a maior ameaça à segurança externa da economia brasileira. Contas externas sustentáveis dependem, no caso do Brasil, das exportações do agronegócio e da confiança do investidor estrangeiro. As vendas de alimentos e matérias-primas de origem agropecuária continuam robustas, apesar das agressões verbais a alguns dos compradores mais importantes, incluída a China. Além disso, a crise ocasionada pela pandemia tem contribuído para a redução dos gastos externos. As despesas líquidas com viagens, por exemplo, foram em abril 91,2% menores que as de um ano antes e ficaram em US$ 90 milhões. Isso contribuiu de forma importante para o déficit na conta de serviços bater em US$ 1,2 bilhão, com recuo de 63,4% em relação ao valor de abril de 2019, segundo o Banco Central.

Principal pilar das transações correntes, o comércio de bens foi novamente superavitário em abril, com saldo de US$ 6,44 bilhões, garantido como sempre pelo agronegócio. As exportações totais, de US$ 18,36 bilhões, foram 4,89% inferiores às de abril de 2019. Mas a retração do mercado, com milhões de famílias em casa e negócios muito reduzidos, derrubou as importações para um valor 15,90% menor que o de um ano antes.

Somados o comércio superavitário de bens e as contas deficitárias de serviços e de rendas, chega-se a um superávit de US$ 3,84 bilhões nas transações correntes. Em março o resultado já havia sido positivo. No ano, porém, o saldo até abril foi um déficit de US$ 11,88 bilhões, 29,94% inferior ao de janeiro-abril de 2019, principalmente por causa da redução de gastos forçada pelo coronavírus. Em 12 meses, o buraco das transações correntes ficou em US$ 44,37 bilhões. No período até março ainda estava em US$ 50,12 bilhões. O rombo acumulado em 12 meses foi financiado, ainda com sobra, por US$ 73,21 bilhões de investimento direto líquido, equivalente a 4,31% do Produto Interno Bruto (PIB) estimado para o período.

Esse investimento, a menos volátil e mais produtiva forma de aplicação de capital estrangeiro, tem declinado desde o trimestre final de 2019. O total acumulado neste ano, até abril, chegou a US$ 18,04 bilhões e ficou 22,28% abaixo do contabilizado nos primeiros quatro meses de 2019. A redução é em parte atribuível à crise internacional. A economia global continua fortemente retraída, mesmo com a retomada inicial das atividades na China.

Em tempo de pouca atividade e muita incerteza, é normal o desvio de capitais para aplicações consideradas seguras, embora pouco rentáveis, como os títulos do Tesouro americano ou mesmo papéis com rendimento negativo, como têm sido os alemães. Quando isso ocorre, as economias emergentes são as maiores perdedoras de recursos. Mas o caso do Brasil tem sido especial.

O País tem sido um dos mais afetados pela mudança nos fluxos de capitais – de investimento direto e principalmente de aplicações tipicamente especulativas. Em abril saíram US$ 7,3 bilhões de investimentos em carteiras de papéis – US$ 4,9 bilhões de títulos de dívidas e US$ 2,4 bilhões de ações e fundos de investimento. A insegurança é bem conhecida. Depois de cerca de 40 reuniões com investidores institucionais da Europa e dos Estados Unidos, nas duas últimas semanas, o economista David Beker, do Bank of America, falou ao Estadão/Broadcast sobre as preocupações dos estrangeiros. Segundo ele, há uma percepção de três crises simultâneas: de saúde, política e fiscal – esta última ligada à incerteza quanto à evolução da política econômica no Brasil. O quadro, acrescentou, era ruim antes da pandemia, por causa do baixo crescimento, e agora piorou. Ele poderia, sem erro, ter assinalado um ponto fundamental: as três crises convergem para a figura do presidente, obcecado por suas preocupações pessoais. Para isso tem chamado a atenção a imprensa internacional. Essa imprensa, segundo o presidente, é formada por esquerdistas. Curiosamente, por meio dela se informam os investidores do mundo rico. Serão esquerdistas disfarçados de bilionários?

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