O primeiro tombo da nova crise

A pandemia agravou os problemas de uma economia já muito enfraquecida

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2020 | 03h00

Vai piorar, antes de melhorar. O aviso sinistro vale igualmente para a economia e para a saúde. O primeiro impacto da pandemia, com isolamento social, consumo retraído e produção travada, ocorreu em março, mas o novo desastre econômico já é atribuído ao novo coronavírus. No primeiro trimestre o Produto Interno Bruto (PIB) foi 1,5% menor que nos três meses finais de 2019, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O balanço do segundo trimestre será ainda mais negativo, advertiu em nota o Ministério da Economia. Se as bolas de cristal estiverem bem reguladas, os números finais do ano serão muito mais feios que aqueles conhecidos até agora. O governo já admitiu uma contração econômica de 4,7% em 2020, mas circulam estimativas bem mais sombrias.

A economia encolherá 5,89% neste ano, segundo avaliação divulgada na segunda-feira pelo Banco Central (BC). Essa é a mediana das projeções captadas numa pesquisa semanal. Expectativas bem piores, com recuos do PIB na faixa de 6% a 9%, têm sido anunciadas por algumas organizações financeiras. Avaliações negativas são formuladas também fora do Brasil. O Instituto de Finanças Internacionais, mantido por cinco centenas dos maiores bancos de todo o mundo e com sede em Washington, calcula um resultado negativo de 6,9% para a produção brasileira em 2020.

Mas o coronavírus, é importante reconhecer, só afetou sensivelmente a economia brasileira a partir da segunda quinzena de março, quando se expandiu o isolamento social. Os danos tornaram-se muito mais severos em abril, como comprova, por exemplo, o fechamento de mais de 860 mil vagas de trabalho com carteira assinada. O Ministério da Economia, tudo indica, acerta ao apontar um segundo trimestre bem pior que o primeiro. Ao publicar os dados do período janeiro-março, no entanto, o IBGE mencionou um PIB “afetado pela pandemia e distanciamento social”.

Há algum exagero nessa explicação. O quadro recém-divulgado inclui, sem dúvida, perdas ocasionadas pela doença e pelo distanciamento social, mas a economia brasileira já estava em más condições antes da pandemia. O PIB cresceu apenas 0,9% nos quatro trimestres encerrados em março, segundo os novos dados, mas o balanço final de 2019 já havia sido muito ruim.

No ano passado a economia cresceu 1,1%. Havia crescido 1,3% em cada um dos dois anos anteriores. A diferença parece pequena, mas o retrocesso fica bem claro quando se recordam as dificuldades políticas do presidente Michel Temer. Apesar desses problemas, inovações importantes foram aprovadas em seu mandato, como a modernização das leis trabalhistas e a instituição do teto de gastos. Aquela modernização, vale a pena lembrar, tornou mais flexíveis as condições de trabalho sem comprometer direitos do trabalhador.

Depois de nove meses muito ruins, a economia ainda se enfraqueceu. No quarto trimestre de 2019 o PIB foi apenas 0,4% maior que no terceiro, numa evidente perda de ritmo. O marasmo continuou. Em janeiro e fevereiro, o crescimento acumulado da produção industrial ficou em 1,6%, depois de ter caído 2,6% no bimestre final do ano passado. Nesses quatro meses, e depois em março, quando surgiu o efeito da pandemia, o setor produziu sempre menos que um ano antes.

O desemprego sempre muito alto confirma a pobreza da política econômica e o desprezo à condição dos trabalhadores – até surgirem os desafios eleitorais decorrentes da pandemia. No trimestre até fevereiro a desocupação, 12,2%, foi apenas 0,5 ponto inferior à de um ano antes.

Quando vier a retomada, o País terá muita capacidade ociosa para aproveitar. Mas o potencial de crescimento na etapa seguinte continuará limitado pelo baixo investimento em capacidade produtiva. No primeiro trimestre esse investimento correspondeu a 15,8% do PIB, pouco acima do registrado um ano antes (15%). Ao governo faltou dinheiro. O empresário nacional viveu apertado e com pouca perspectiva. O estrangeiro tem-se arriscado menos, diante da tensão constante criada pelo presidente Bolsonaro.

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