O problema é a incompetência

Enquanto o presidente Bolsonaro se ocupa de pornografia, o desemprego e o subemprego continuam a atormentar a vida de quase 30 milhões de brasileiros

O Estado de S. Paulo, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2019 | 03h00

Ao queixar-se de uma suposta lentidão da democracia para promover a “transformação que o Brasil quer”, Carlos Bolsonaro, filho do presidente Jair Bolsonaro, não só flertou com o golpismo, como parecia tentar responder às críticas – vindas inclusive de bolsonaristas – de que o governo não está entregando o prometido na campanha.

À exceção dos devotos mais fervorosos de Bolsonaro, os eleitores do presidente vêm há algum tempo demonstrando insatisfação com o desempenho do governo, o que se reflete nas pesquisas de opinião que lhe atribuem alta desaprovação, inédita entre presidentes a esta altura do mandato.

Não é à toa. Para quem acreditou no discurso de posse do presidente Bolsonaro, que anunciou “um novo tempo para o Brasil e para os brasileiros”, os resultados até aqui decerto são nada menos que decepcionantes. O presidente – felizmente, pode-se dizer – não consegue fazer avançar nem mesmo a chamada “pauta de costumes” contra o que chamou de “ideologias que destroem nossos valores e tradições, destroem nossas famílias, alicerce da nossa sociedade”.

Nenhuma iniciativa nessa área prosperou até agora, restando somente o barulho provocado nas redes sociais pelo mau comportamento – e o mau português – do ministro da Educação ou então pelas iniciativas autoritárias de Bolsonaro para proteger a “família brasileira” de manifestações artísticas que ele considera indecentes.

Embora cause burburinho, essa agenda é irrelevante, diante dos graves e profundos problemas nacionais. Nunca é demais lembrar que, enquanto o presidente Bolsonaro se ocupa de pornografia, o desemprego e o subemprego continuam a atormentar a vida de quase 30 milhões de brasileiros. É certo que ninguém pode acusar o presidente de ter enganado seus eleitores, já que, durante a campanha, confessou que nada entendia de economia, e àqueles que lhe cobravam propostas concretas sugeriu que falassem com o futuro ministro da Economia, Paulo Guedes.

Até aqui, no entanto, a gestão da economia tem sido marcada por uma angustiante letargia, que não condiz com o discurso grandiloquente de Paulo Guedes. Muito foi anunciado com pompa – privatizações, desburocratização, reforma tributária – e pouco foi efetivamente entregue. Enquanto isso, o governo deixa os desempregados no sereno, reservando-lhes apenas algumas medidas de alcance limitado para estimular a economia e tentar gerar algumas vagas.

Como se isso não bastasse, a ala do governo que tem como guru um ex-astrólogo que mora nos Estados Unidos continua a embaraçar o País no exterior, criando antagonismos com potencial para prejudicar os negócios brasileiros, justamente num momento em que é necessário conquistar mercados, e não hostilizá-los. 

Diante disso, está claro que a manifestação de caráter golpista do filho do presidente, além de reafirmar a vocação liberticida do grupo mais íntimo no poder, se presta a entreter o País enquanto o governo patina em sua mediocridade.

O problema central deste governo, é necessário deixar claro, ainda não é a democracia, e sim a incompetência. Bolsonaro foi incapaz de construir uma base de apoio no Congresso, desorientando os poucos parlamentares que se dispuseram a defender os raros projetos do governo. Hoje, no nono mês de governo, já é possível concluir que Bolsonaro realmente não sabe definir políticas públicas nem muito menos transformá-las em projetos de lei viáveis, e tampouco sabe como se relacionar com o Congresso. A única área a merecer empenho político do presidente é a que envolve os interesses de sua família.

Despreparado para o exercício do poder num regime democrático, Bolsonaro escolheu o único caminho que conhece para governar, o do enfrentamento, tentando impor sua vontade por meio de medidas provisórias e decretos afoitos ou simplesmente inconstitucionais, além de afrontar a imprensa. Felizmente, a maioria desses éditos presidenciais tem sido devidamente rechaçada pelo Legislativo e pelo Judiciário.

Resta aos cortesãos bolsonaristas lamentar que aqui não seja uma ditadura.

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