O retrocesso do Brasil industrial

Anos de esforço de industrialização vêm sendo perdidos por erros políticos agravados desde 2020 pela pandemia

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

16 de janeiro de 2022 | 03h00

Mais que uma crise conjuntural, a economia brasileira vive um recuo histórico, perdendo posições no mercado global e décadas de industrialização. Iniciado há mais de um século e acelerado a partir do fim da 2.ª Guerra Mundial, o esforço de implantação de um grande setor industrial vem sendo anulado por um acúmulo de erros políticos. A produção da indústria em novembro deste ano foi cerca de 20% menor que em maio de 2011, pico da série estatística. O volume produzido diminuiu em seis dos dez anos entre 2011 e 2020 e o desempenho neste ano continua abaixo de medíocre. Com a queda de 0,2% em novembro foram completados seis meses consecutivos de perdas. Em 11 meses desde o início do ano houve nove resultados mensais negativos. O último dado mostrou uma atividade 4,3% abaixo do patamar de fevereiro de 2020, fim do período pré-pandemia

O surto de covid-19 afetou uma indústria já enfraquecida por severas comorbidades, com baixo investimento em inovação e em capacidade produtiva, insuficiente capitalização, juros altos, escassez de mão de obra qualificada, entraves causados por burocracia estatal, tributação inadequada e declinante poder de competição internacional. Alguns analistas apontam entre os problemas a supervalorização da moeda nacional, com barateamento de importações e encarecimento de exportações. Mas esse desajuste, evidente em alguns períodos, como nos anos 1990, foi menos duradouro do que outros. Em contrapartida, a proteção excessiva a alguns segmentos da indústria desestimulou a busca de competitividade.

O recuo do setor industrial, acentuado nos últimos dez anos, foi acompanhado da eliminação de 834 mil empregos, segundo números oficiais atualizados até outubro. O fechamento de postos industriais é especialmente nocivo, porque o setor é a fonte principal dos chamados empregos decentes, com carteira assinada e benefícios complementares, como serviços de saúde. A desindustrialização do País envolve relevantes custos sociais.

Alguns segmentos industriais, como o aeronáutico, cresceram e ganharam peso no mercado internacional enquanto a maior parte do setor retrocedia. No mesmo período, o agronegócio continuou modernizando-se, ganhando poder de competição e ampliando sua presença no mercado global. Qualquer política de reindustrialização do País poderá ser beneficiada, quase certamente, por um exame das características dessas atividades bem-sucedidas na última década – e, de fato, em firme avanço pelo menos desde os anos 1980.

Essa política dependerá, no entanto, de um reconhecimento do problema e, depois, da elaboração de planos de revitalização e de modernização da indústria, com definição de metas, prazos e meios de ação. Seria preciso articular esses planos com roteiros de correção das contas públicas e de liberação de recursos fiscais para o desenvolvimento. Será surpresa, no entanto, se os problemas estruturais da indústria forem pelo menos percebidos e incluídos na pauta federal, neste fim de mandato do presidente Jair Bolsonaro.

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