O risco de um mau recorde

Pedidos de recuperação judicial podem bater recorde e superar os da última crise, em 2016, aponta estudo

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2020 | 03h00

O Brasil poderá enfrentar um novo e desastroso recorde de recuperações judiciais, como efeito da retração econômica, segundo especialistas citados ontem pelo Estado. Maior desemprego e maior dificuldade para a reativação da economia serão as consequências mais previsíveis, se as projeções se confirmarem. Mais de 2,5 mil empresas poderão entrar em recuperação, como efeito da crise atual, se o Produto Interno Bruto (PIB) encolher 5% em 2020, de acordo com estimativa da consultoria especializada Alvarez & Marsal (A&M). O último recorde ocorreu em 2016, quando houve 1,8 mil solicitações de proteção à Justiça. Foi o segundo ano da recessão iniciada na fase final da gestão petista. Naquele biênio a produção diminuiu 3,5% e em seguida 3,6%, num dos piores desempenhos, talvez o pior, do período republicano.

O governo, espera-se, já leva em conta os problemas de solvência – e o risco de quebras – de muitos milhares de companhias nos próximos meses. As medidas já anunciadas por bancos para alongar prazos de carência e de pagamentos são por enquanto a novidade mais animadora.

Os pedidos de recuperação judicial foram estimados com base na experiência desde 2007, segundo o diretor de reestruturação da A&M, Leonardo Coelho. Os cálculos foram efetuados a partir da correlação observada entre a queda do PIB e o aumento das solicitações de proteção judicial. A hipótese de contração econômica de 5% tem referências muito respeitáveis. O Banco Mundial projeta para o Brasil um recuo de 5% em 2020. O Fundo Monetário Internacional aponta resultado negativo de 5,3%.

O escritório elaborou cálculos também com base em cenários melhores. Exemplo: se o PIB diminuir 3% neste ano, 2,2 mil empresas pedirão recuperação judicial entre o terceiro trimestre de 2020 e o terceiro de 2021. Essa hipótese praticamente coincide com a mediana das projeções do mercado, de 2,96% de recuo, segundo o boletim Focus do Banco Central. Nesse caso, assim como no quadro de retração de 1,5% (2,1 mil solicitações), o número de recuperações judiciais ainda será maior que o de 2016.

O risco de quebradeira, ou, no mínimo, de enorme número de problemas de solvência, foi indicado quando a pandemia começava a manifestar-se no Brasil. Segundo estudo publicado naquele momento, apenas metade das maiores empresas teria caixa – sem receita – para três meses. Grande parte das pequenas e médias aguentaria menos de um mês. Combinar os números desse estudo com os da análise da A&M seria certamente trabalhoso, mas é clara a continuidade entre os cenários.

Novas consultas sobre recuperação judicial são numerosas, segundo o diretor de reestruturação da A&M. Outras fontes apontam número crescente de pedidos de alterações nos programas já aprovados de recuperação. Não basta, portanto, levar em conta os números prováveis de novas solicitações de proteção. É preciso considerar também as companhias já em recuperação e agora sujeitas a dificuldades inesperadas.

A ajuda fiscal oferecida a empresas para atenuar os efeitos da crise e proteger empregos é importante, mas de alcance limitado a poucos meses. O risco de grande número de insolvências permanece, assim como o perigo de novas dispensas. Segundo recentes projeções, o número de novos desempregados poderá ficar entre 2,5 milhões e 5 milhões. Isso vai depender da duração e da profundidade da crise.

As estimativas, no entanto, são especialmente arriscadas, hoje, porque a recessão tem características muito particulares. A mais evidente é a sua origem, uma pandemia, com as consequentes medidas de isolamento e de alteração das condições de trabalho. A diferença em relação à crise global de 2008-2009 também é clara: os problemas, naquela ocasião, nasceram no setor financeiro. Mas o novo drama brasileiro também se caracteriza por haver começado com a economia já muito débil e com alto desemprego. É preciso considerar também esse dado ao definir ações anticrise – e sem violar uma restrição essencial: tudo poderá ficar muito pior se a reabertura for precipitada.

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