O Sínodo da Amazônia

Vê-se, assim, que eram inócuos desde o princípio os temores de círculos do governo brasileiro a respeito de uma ofensiva dos bispos contra a soberania nacional

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2019 | 03h00

Encerrou-se, após 21 dias, o Sínodo da Amazônia, convocado pelo papa Francisco para “encontrar novas vias para a evangelização daquela porção do povo de Deus, em particular as pessoas indígenas, frequentemente esquecidas e sem a perspectiva de um futuro sereno, também por causa da crise da floresta amazônica”. Pelo caráter emblemático da Pan-Amazônia, maior floresta do planeta que atravessa nove países, com 34 milhões de habitantes e 390 grupos étnicos, as reflexões do Sínodo ultrapassam o território geográfico, referindo-se ao futuro do planeta.

O documento traz, como se esperava, propostas controvertidas, como a ordenação de homens casados para zonas remotas, e solicita maior participação das mulheres no ministério e na direção das comunidades eclesiais, além de conclamar compromissos gerais, como o da Igreja contra o que se chamou de “pecado ecológico” e o da comunidade internacional com um modelo de desenvolvimento solidário, que favoreça as comunidades locais e freie as mudanças climáticas.

Os questionamentos serão considerados pelo pontífice, que pode se pronunciar em uma Exortação Apostólica ou solicitar à cúria mais estudos sobre o tema.

Vê-se, assim, que eram inócuos desde o princípio os temores de círculos do governo brasileiro a respeito de uma ofensiva dos bispos contra a soberania nacional, assim como os de alas conservadoras de uma agressão à ortodoxia. O sínodo, pela sua natureza, não tem caráter normativo, só consultivo.

O fato de questionar práticas tradicionais, como o celibato dos sacerdotes, não implica necessariamente uma atitude cismática e heterodoxa – até porque o celibato não é matéria de dogma e já há previsão de exceções, como, por exemplo, no caso de sacerdotes da igreja anglicana ou da ortodoxa que se convertem à igreja católica. Pode simplesmente ser uma demonstração de que o clero está disposto a flexibilizar, em caráter excepcional, tradições não dogmáticas, se, em situações excepcionais, elas servirem de obstáculo à sua dúplice missão: propagar a palavra de Cristo e distribuir o seu corpo na forma do pão e do vinho eucarísticos e dos demais sacramentos – algo que, segundo os padres sinodais, não tem acontecido na Amazônia por causa da falta de sacerdotes.

Mas tampouco as esquerdas deveriam nutrir falsas esperanças de que o Sínodo prenuncie uma adaptação da Igreja aos seus próprios dogmas ideológicos. O “pecado ecológico”, por exemplo, que certos bispos, em parte seduzidos por tais dogmas, apresentam como algo revolucionário, é na verdade tão antigo quanto o pecado, e existe como possibilidade desde que, segundo as Escrituras, os primeiros seres humanos receberam do Criador o mandamento de cultivar a terra (Gn. III, 23).

Como uma comunidade (ecclesia, em grego) que se quer universal (catholike), a Igreja sabe que a “casa comum” (ekumene) depende da consciência sobre o mundo natural (eco-logia) que deve influenciar a organização dessa casa e seus recursos (eco-nomia). Ela lembra que o domínio das relações dos homens com Deus, materializado na religião, é – em termos análogos ao dogma da união da natureza divina e humana em Cristo – unido, mas não confundido; distinto, mas não separado do domínio das relações dos homens entre si (a política) e dos homens com a natureza (na exploração econômica).

A economia tem seu domínio moral e faz bem a Igreja em lembrar a todos, em especial a seus fiéis, que, primeiro, não se deve substituir Deus por Mamon, considerando a riqueza material como um fim independente e absoluto da atividade humana; depois que, em segundo lugar, é preciso ter compaixão pelos trabalhadores e comunidades menos favorecidos; e que, por fim, não se deve abusar da terra e destruí-la, de modo que nem os seres humanos nem a natureza deveriam ser usados como mero instrumento da produção econômica. Ao alertar para essa tríplice vocação do ser humano, pode-se dizer que o Sínodo cumpriu sua missão.

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