O tombo global e a volta por cima

Vários países caíram mais que o Brasil, mas terão melhores condições de reagir

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2020 | 03h00

O novo desastre global foi liderado pelas grandes potências capitalistas. Com a pandemia, o PIB das sete maiores economias encolheu 10,8% no segundo trimestre e foi 12,1% menor que o de um ano antes, segundo a primeira estimativa geral. No Brasil o estrago pode ter sido menor. O Produto Interno Bruto deve ter diminuído 8,7%, se estiver correto o cálculo da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o mais confiável até agora. O dado oficial será publicado em 1.º de setembro. Na União Europeia a perda foi de 11,7% em relação ao primeiro trimestre. Na zona do euro, de 12,1%. Esses números foram divulgados pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Se o quadro geral for confirmado, otimistas poderão ser tentados a festejar o desempenho brasileiro. Aproveitem, portanto, a rara oportunidade. Quando for retomado o crescimento, os países desenvolvidos e a maior parte dos emergentes deverão estar, de novo, em condições melhores que as do Brasil, com maior potencial produtivo, contas públicas mais arrumadas e menores desigualdades.

Essas diferenças já existiam antes da recessão ocasionada pela pandemia. Além de crescer menos que outros emergentes por muitos anos, o Brasil se distinguia também por sua dívida pública, bem maior, como porcentagem do PIB, que a encontrada na maior parte dos países de renda média. O endividamento deve crescer na maior parte do mundo, por causa das medidas emergenciais implantadas neste ano, mas o setor público brasileiro partiu de uma posição já mais desfavorável.

Mas há outras diferenças importantes, quando se trata de gasto público e de endividamento. O primeiro-ministro da França, Jean Castex, promete apresentar em 1.º de setembro um plano de recuperação com despesa prevista de 40 bilhões de euros. A prioridade número um, afirmou, será a ampliação do emprego.

Na Alemanha, a coalizão governista anunciou um acordo para estender as medidas anticrise. O programa de apoio ao emprego, por exemplo, deverá prolongar-se até o fim de 2021, em vez de findar, como se previa, em março. O custo dessas ações no próximo ano está estimado em 10 bilhões de euros, segundo informou o ministro das Finanças, Olaf Scholz.

Se as medidas adicionais de reativação impuserem maior endividamento, os governos das maiores economias europeias poderão tomar novos empréstimos sem grandes problemas. Assumirão compromissos com juros baixos, talvez negativos, e poderão trabalhar sem temer a avaliação do mercado. O setor público, nesses países, tem credibilidade.

A situação é muito menos tranquila para o governo brasileiro. A dívida pública é muito alta para um país emergente. Poderá estar pouco abaixo de 100% do PIB, no fim do ano, se tudo correr mais ou menos de acordo com os planos da equipe econômica. Poderá ter ultrapassado aquela marca, se as pressões por gastos prevalecerem. Terão peso especial, nesse jogo, os interesses eleitorais do presidente, potencialmente muito custosos.

O quadro seria menos preocupante se as ações do governo fossem respaldadas por uma sólida credibilidade. As oscilações diárias nos mercados de capitais e de câmbio refletem a incerteza sobre as contas públicas. O temor é mencionado por investidores, operadores e analistas do setor financeiro. O risco de juros mais altos, por causa da insegurança, é um componente importante dos cenários.

Os dados trimestrais parecem mostrar, de fato, um desempenho menos ruim do Brasil. Essa impressão é quase inevitável, quando se consideram o tombo de 20,4% do Reino Unido e as quedas de 13,8% da França, de 12,4% da Itália e de 9,5% dos EUA. Mas todos esses países têm condições muito melhores de recuperação – mais dinheiro público para gastar, juros menores, mais espaço para estímulos monetários, maior produtividade, maior inclusão social e maior integração global. No Brasil, há promessas de extensão de algumas políticas de apoio, misturadas com ações eleitorais. Não há sinal de um plano de recuperação responsável, bem desenhado e apoiado pelo presidente.

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