O triste fim da ‘guerra interminável’

Planos de vencer o jihadismo com diplomacia e inteligência parecem 'wishful thinking'

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2021 | 03h00

Após 20 anos, a guerra mais longa dos EUA chegou ao fim. A contragosto, os aliados dos americanos cumpriram o prazo imposto por Joe Biden (a “linha vermelha” do Taleban). No dia 30, uma a uma as últimas aeronaves de França, Alemanha, Reino Unido e finalmente dos EUA decolaram de Cabul, deixando para trás um Afeganistão sob o controle do Taleban – exceto por uma pequena força de resistência no norte e insurgentes do Estado Islâmico.

A Casa Branca insiste que não tinha opção e que a evacuação foi um sucesso. Ambas as afirmações são desonestas.

Mesmo antes do avanço Taleban, Biden insistiu em uma saída rápida, completa e incondicional, apesar das recomendações de estrategistas de manter uma força residual; insistiu em abandonar a base de Bagram, de onde as forças aéreas poderiam reprimir o avanço Taleban, garantir zonas e corredores de segurança e coordenar uma evacuação mais segura. Segundo o Washington Post, às portas de Cabul, o Taleban teria oferecido aos EUA a possibilidade de fornecer segurança na cidade, mas Biden disse que o aeroporto era suficiente.

O resultado foi não só a morte de 13 militares americanos e dezenas de afegãos em um atentado terrorista do Estado Islâmico local, mas, como o Pentágono admite, centenas de americanos (há quem fale em milhares) e dezenas de milhares de aliados afegãos deixados para trás, à mercê do Taleban.

Até o momento, ninguém na sua administração admitiu qualquer erro, muito menos se desculpou. Durante a evacuação, as lideranças americanas seguiram dizendo que haveria tempo para avaliar responsabilidades. Esse tempo chegou.

A evacuação é alvo de críticas de republicanos e muitos democratas. “Não se termina uma guerra se rendendo”, disse a deputada republicana Liz Cheney, resumindo o sentimento de muitos americanos. “Não se torna os EUA seguros deixando americanos atrás das linhas inimigas, traindo nossos aliados e empoderando nossos inimigos. Isso não é terminar uma guerra. Isso é perdê-la.”

O fracasso, é verdade, foi resultado de escolhas erradas de múltiplos titulares da Casa Branca e de ambos os partidos, baseadas na falsa premissa de que a única escolha era entre o controle total do Afeganistão ou uma retirada total.

Em alguns aspectos a situação é semelhante à dos anos 90. A retirada dos soviéticos e depois dos americanos foi seguida por uma guerra civil e a ascensão do Taleban, que transformou o país em um santuário para grupos jihadistas como a Al-Qaeda. Mas em alguns aspectos é pior: o Taleban controla mais territórios, está mais bem armado (sobretudo com mais de US$ 80 bilhões em arsenal americano) e surgiram antagonistas ainda mais extremistas, como o Estado Islâmico. Como advertiu o conselheiro de segurança paquistanês Moeed Yusuf, o resultado pode ser mais ondas de refugiados, outro vácuo de segurança a ser explorado por terroristas e mais uma crise humanitária.

O Taleban faz acenos de moderação. Diz que permitirá àqueles com vistos internacionais deixarem o país, que respeitará os direitos das mulheres e que não retaliará os aliados. Acredita quem quer. Desconfia quem tem juízo.

Neste momento, jihadistas do Iêmen à Somália, do Paquistão à Nigéria celebram a derrota da aliança ocidental e planejam a tomada do poder em seus países. Ante o fracasso dos militares americanos de prever a curtíssimo prazo o colapso do regime afegão, seus planos de vencer o jihadismo a longo prazo com um misto de diplomacia e inteligência contraterrorista parecem puro wishful thinking. Os aliados estão desapontados; os adversários, encorajados; e o mundo, confuso. Ninguém esperava que as “guerras intermináveis” se encerrassem com uma “paz interminável”, mas ninguém imaginava que terminariam assim: com uma teocracia selvagem com plenos poderes e a restauração do Afeganistão como uma potencial incubadora de terroristas. 

A guerra, que começou com um atentado contra os americanos em Nova York, terminou com um atentado contra os americanos em Cabul. É um tétrico presságio de que as “guerras intermináveis” estão longe de acabar.

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