O valor da credibilidade

Erro em um indicador importante como a balança comercial pode colocar em dúvida a correção dos demais números

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

05 de dezembro de 2019 | 05h00

O resultado parcial da balança comercial de novembro foi corrigido duas vezes em menos de uma semana, o que levantou dúvidas sobre a confiabilidade dos números oficiais da economia do País. “Falha nos dados econômicos brasileiros desperta preocupações entre analistas”, comentou o jornal britânico Financial Times, referência para investidores de todo o mundo. As reticências são compreensíveis, pois é da certeza sobre os dados econômicos básicos que deriva a segurança de quem planeja investir em qualquer país. Um erro em um indicador importante pode colocar em dúvida a correção dos demais números.

Embora não se negue a gravidade do problema, são exageradas - quando não capciosas - as reações daqueles que interpretam o erro como um sintoma de manipulação de dados, especialmente tendo em vista a longa e sólida tradição de credibilidade dos órgãos responsáveis pela compilação de dados da economia brasileira. Erros, afinal, acontecem, e o importante é que sejam corrigidos o mais rapidamente possível, em nome da transparência. Foi o que aconteceu no caso da balança comercial. 

Em 25 de novembro, anunciou-se um déficit de US$ 1,099 bilhão no acumulado do mês até aquele momento; três dias depois, o número foi revisado para um superávit de US$ 2,717 bilhões. O Ministério da Economia informou na ocasião que o erro estava nas exportações, que haviam sido de US$ 13,498 bilhões, e não de US$ 9,681 bilhões, como anteriormente calculado. Contudo, na segunda-feira passada, o governo voltou a corrigir o resultado, acrescentando US$ 6,488 bilhões às exportações registradas no acumulado do trimestre até 24 de novembro. O Ministério da Economia atribuiu o problema, de dimensões inéditas, a uma falha de programação no sistema Serpro (Serviço Federal de Processamento de Dados), que faz o processamento das estatísticas de comércio exterior.

Parece evidente que não se trata de adulteração de dados, pois o erro produziu um resultado pior para a economia nacional, e não melhor, como se poderia esperar caso houvesse realmente interesse do governo em distorcer números. É evidente que, para os maliciosos de sempre, isso não importa. “A acusação do Financial Times é gravíssima: o governo brasileiro estaria maquiando dados econômicos”, escreveu no Twitter a deputada Gleisi Hoffmann, presidente do PT. Nem é preciso dizer que se trata de um embuste em múltiplas dimensões - nem o Financial Times fez qualquer “acusação” de “maquiagem” de números por parte do governo nem o PT pode se arvorar em defensor da transparência nessa seara, já que, quando esteve no poder, elevou a chamada “contabilidade criativa” à categoria de política de Estado. Além disso, é bom lembrar que entre os modelos petistas de administração estava a então presidente da Argentina Cristina Kirchner, que fraudava dados como Produto Interno Bruto (PIB), inflação e índices de pobreza para iludir incautos com as proezas de seu governo.

Felizmente, nem mesmo durante o mandarinato petista se tem notícia de que técnicos do governo e de instituições públicas de reconhecida competência, como é o caso do IBGE, que calcula o PIB, tenham se permitido distorcer dados para favorecer quem quer que fosse. Não há razão para crer que isso tenha mudado agora.

Mas é preciso tomar providências para que problemas como esse não voltem a se repetir, pois o impacto é considerável. O dado revisado da balança comercial não foi incluído no resultado do Produto Interno Bruto do terceiro trimestre do ano, divulgado na terça-feira. Ou seja, o PIB deverá sofrer revisão, possivelmente para cima. Além disso, as dúvidas sobre os dados do comércio exterior tiveram impacto também no mercado de câmbio - a informação equivocada de que houve déficit na balança colaborou para a recente alta do dólar.

Erros em informações econômicas oficiais geram prejuízos concretos para quem nelas acreditou e nem sua posterior correção é capaz de reverter. Logo, o melhor mesmo é não cometê-los.

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