O veneno kirchnerista

Renúncia de ministro sugere que a administração está sendo subjugada pelo radicalismo de Cristina Kirchner

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

05 de julho de 2022 | 03h05

A renúncia do ministro da Economia da Argentina, Martín Guzmán, no sábado, é o mais recente capítulo da tensão no interior do governo peronista entre os radicais, liderados pela vice-presidente Cristina Kirchner, e os moderados: Guzmán, o quarto ministro a cair nos últimos meses, era o último homem de confiança do presidente Alberto Fernández, cada vez mais isolado e sem pulso. A imposição da nova titular, Silvina Batakis, por Cristina sugere que a capitulação foi completa. No ano e meio que resta ao governo, a expectativa é que ele redobre a dose do remédio kirchnerista que está envenenando a economia argentina: mais gastos, mais intervenção e mais impressão de dinheiro.

Em sua carta de renúncia, o próprio Guzmán previu que seu sucessor deveria surgir de um “acordo político dentro da coalizão governante” e contar “com o manejo centralizado dos instrumentos de política macroeconômica”.

Não que Guzmán deixe um legado virtuoso. A inflação anual já bateu os 60%, as previsões para este ano superam os 70% e a pressão sobre a dívida tende a aumentar exponencialmente. Segundo o ex-ministro da Economia Nicolás Dujovne, da oposição de centro-direita, Guzmán “não tinha disciplina fiscal, não estava fazendo os ajustes necessários e perdeu a confiança dos investidores”.

Mas Cristina desmoralizava o ministro não pelos seus muitos erros, mas por seus poucos acertos. No início do ano, Guzmán havia renegociado uma dívida de US$ 44 bilhões com o Fundo Monetário Internacional, freando a elevação do índice de risco do país. A renegociação foi o principal alvo da ex-presidente.

Em nota recente, economistas do Citi advertiram seus clientes de que “uma inflação em espiral, no estilo anos 80, é um risco real”. Com a queda de Guzmán, esse risco só aumentou. Na segunda-feira, o dólar disparou e as bolsas despencaram.

Cristina Kirchner, transformada em uma espécie de censora do governo, vem elevando o tom das críticas a Fernández. A crise devora minuto a minuto a autoridade do presidente, e nos corredores políticos já não se descarta um final antecipado de seu mandato.

Mas, diante de uma deterioração acelerada, Fernández entrou no modo negação. Em junho, quando a desvalorização do peso se intensificava, ele afirmou que “temos um problema com dólares porque crescemos muito”.

Moderados ou radicais, os peronistas coincidem na terceirização de suas responsabilidades. Na semana passada, quando rumores de que não haveria bancos dispostos a renovar as dívidas do governo despertaram uma corrida por dólares, Fernández acusou a oposição de tentar um “golpe de mercado”, do mesmo modo que antes os peronistas já haviam falado em “golpes” da mídia ou do Judiciário. Na verdade, é cada vez mais indisfarçável que são as próprias disputas intestinas no governo que têm injetado desconfiança e incerteza nos mercados.

O peronismo goza da sólida reputação de não deixar seus rivais governarem. A peculiaridade agora é que, pelo arbítrio de Cristina Kirchner, os peronistas estão desestabilizando o seu próprio governo.

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