O vírus pegou uma indústria já frágil

A produção já ia mal quando chegou o surto. A recuperação era apenas um mito

Notas e informações, O Estado de S.Paulo

07 de maio de 2020 | 03h00

Sem ilusões, é preciso reconhecer o mau estado da indústria – e da economia nacional – antes da chegada do novo coronavírus. Não se trata de menosprezar o impacto da pandemia, mas de olhá-lo sem perder a perspectiva. Primeiro ponto: os danos econômicos ocasionados pela covid-19 foram sem dúvida consideráveis. Com o isolamento social, a redução do consumo, as mudanças nas condições de trabalho e as novas incertezas, a produção industrial caiu 9,1% de fevereiro para março. Com essa queda, aproximou-se do nível de agosto de 2003 e ficou 24% abaixo do recorde alcançado em maio de 2011. Houve perdas em todas as grandes categorias de produtos e em 23 dos 26 segmentos empresariais cobertos pela pesquisa. Em relação a março de 2019 o recuo foi de 3,8%. Isso conduz ao segundo ponto e à indispensável perspectiva realista.

Com a queda em relação a março do ano passado, pela quinta vez seguida foi negativo o confronto com igual mês do ano anterior. Em outras palavras, desde a comparação de novembro de 2019 com novembro de 2018 esse tipo de verificação tem mostrado recuo. O balanço recém-divulgado pelo IBGE aponta uma piora inegável em março, mas toda a sequência é indisfarçavelmente ruim. Os números encontrados a partir de novembro/novembro são -1,7%, -1,3%, -0,9%, -0,3% e -3,8%. As informações publicadas até fevereiro, antes, portanto, dos primeiros impactos da pandemia, mostravam de forma inequívoca a fraqueza da maior parte da indústria.

Não se pode, portanto, falar de uma recuperação interrompida pela chegada do novo coronavírus. Pode-se falar de efeitos desastrosos para a economia, de enormes problemas para a maioria das empresas, de sacrifício para os trabalhadores e de empobrecimento de milhões. Acima de tudo, é preciso levar em conta as perdas de milhares de vidas e os lamentos de tantas famílias. Mas seria um erro atribuir ao coronavírus as falhas da política econômica. Essas falhas se acumularam bem antes de seu desembarque no Brasil.

Em março os primeiros efeitos da pandemia somaram-se às consequências da política. Com isso, a produção no primeiro trimestre foi 1,7% menor que a registrada nos meses de janeiro a março de 2019. O resultado em 12 meses foi uma queda de 1%. Nesses números, nada parece muito diferente do quadro final do ano passado, uma queda de 1,1%, segundo a série do IBGE. Mas o retrospecto é sem dúvida bem pior que o dos dois primeiros anos depois da recessão.

Em 2017 a indústria produziu 2,5% mais que em 2016. No ano final da recessão a perda havia chegado a 6,4%. Em 2018, na segunda etapa da recuperação, o crescimento foi de 1%, bem mais modesto, é verdade, mas um resultado, enfim, ainda positivo. Nesse ano a economia foi duramente prejudicada pela paralisação do transporte rodoviário, ação apoiada pelo candidato Jair Bolsonaro, e pela enorme incerteza quanto às eleições e ao futuro da economia.

Apesar de tudo, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 1,3% em 2018. No ano seguinte, início do novo mandato, a expansão ficou em 1,1%. O novo presidente assumiu o posto com declarações de confiança de muitos empresários e com amplo suporte eleitoral, mas suas prioridades, logo se viu, estavam longe das questões econômicas. Os desempregados ainda eram, no primeiro trimestre de 2019, cerca de 12,4 milhões de pessoas, 12,7% da força de trabalho. Mas o presidente mostrou-se mais preocupado com outros assuntos. Começou o mandato cuidando de facilitar o acesso às armas, criando caso com grandes importadores de produtos brasileiros, cortejando o presidente americano, Donald Trump, e tentando impor à educação seus critérios ideológicos e religiosos. Tratada pelo Executivo federal como assunto menor, a recuperação da economia perdeu vigor, o crescimento ficou em miserável 1,1%, o desemprego pouco diminuiu e a indústria até se enfraqueceu. Com a pandemia, o governo foi forçado, enfim, a enxergar a economia real, a fragilidade de milhares de empresas e as péssimas condições do emprego. Quem pagou por essa lição tão cara foi o País.

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