Os caminhos da integração

O Brasil precisa se desvencilhar das travas ideológicas armadas pela gestão petista na máquina pública, estabelecendo estratégias pragmáticas para uma política comercial voltada aos principais mercados

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2019 | 03h00

Ratificando a orientação da Secretaria de Comércio Exterior de acelerar as negociações de acordos comerciais, o ministro da Economia, Paulo Guedes, admitiu, durante um evento da XI Cúpula dos Brics, que o Brasil se trancou nos últimos anos numa armadilha de baixo crescimento. “Queremos sair desta armadilha”, disse. “A integração ao comércio global é um dos caminhos para a prosperidade.” Sem entrar em detalhes, o ministro revelou que tem conversado com a China sobre uma área de livre comércio. No fim de julho, pouco após a conclusão do acordo entre o Mercosul e a União Europeia, o Brasil iniciou oficialmente negociações para um acordo comercial com os Estados Unidos. A viabilidade dessas manobras é confirmada pelo indicador de Comércio Exterior da Fundação Getúlio Vargas. “A China é o principal parceiro comercial do Brasil”, aponta o estudo, “mas o comércio brasileiro é diversificado, o que sugere que os interesses da política comercial devem ser multilateralizados.”

A China é o destino mais importante das exportações brasileiras (27,8%), 14,7 pontos porcentuais acima dos Estados Unidos. O bloco da União Europeia responde por 16,3%. A China é também o principal mercado das importações brasileiras (20%), à frente dos EUA (16,8%) e da União Europeia (18,7%). A China, por fim, é fundamental para os superávits da balança comercial. No acumulado até outubro, o saldo da balança foi de US$ 34,9 bilhões, sendo que o saldo com a China foi de US$ 21,4 bilhões. Já com os EUA, a balança foi deficitária em US$ 1,1 bilhão.

Por outro lado, os volumes exportados para os EUA registraram um aumento de 13,3%, enquanto recuaram em todos os demais mercados. Também no volume de importações dos EUA houve aumento de 13%. O principal produto exportado foi o petróleo, seguido de manufaturas de aço, enquanto o principal produto importado foram os óleos combustíveis, o que revela um comércio associado à infraestrutura de refino no território brasileiro.

Os piores resultados vieram da Argentina, principal parceiro do Brasil no comércio sul-americano. Com a recessão no país vizinho, as exportações caíram 35,9% no volume e 38,4% no valor, representando 4,4% do total de exportações do Brasil, o segundo pior resultado desde 2000.

No acumulado do ano até outubro as exportações caíram em valor 6,8% e as importações, 0,6%. Em volume as exportações caíram 8,7%, enquanto as importações aumentaram 12,6%. No mesmo período, a exportação de commodities cresceu 1,6%, enquanto a de não commodities decresceu 6,8%. Todos os preços exportados caíram, embora a redução nos termos da troca tenha sido pequena, 1,3%.

Considerados os tipos de produto, a agropecuária teve o maior crescimento nas exportações (1,7%), seguida pelo setor extrativo (1,2%). Já a indústria de transformação registrou queda de 3,6%, sobretudo em razão da recessão argentina, mas também por uma perda de competitividade dos produtos brasileiros no mercado internacional. O setor teve desempenho ruim também nas importações. As quedas mais expressivas, tanto nas exportações quanto nas importações, foram no comércio de bens de consumo duráveis, devido à retração do comércio automotivo Brasil-Argentina. Mas há sinais de uma possível recuperação da atividade industrial, já que o volume de bens intermediários importados pela indústria aumentou 17,2%.

A perspectiva para a balança comercial é de um superávit em torno de US$ 45 bilhões para 2019. Em termos de volume de comércio o ano mostra um melhor desempenho dos EUA. Mas o principal responsável pela obtenção dos saldos comerciais positivos continua a ser, de longe, a China, seguida pelo mercado sul-americano e depois o europeu. Tudo isso ressalta a necessidade, na área das relações exteriores como em outras, de o País se desvencilhar das travas ideológicas armadas pela gestão petista na máquina pública, estabelecendo estratégias pragmáticas para uma política comercial voltada aos principais mercados.

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