Os danos colaterais da covid-19

Turbulência nas rotinas sanitárias impacta imunização e tratamento de outras doenças

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2020 | 03h00

Além da catástrofe econômica e do massacre provocado pelo vírus, um dos seus impactos mais dramáticos é o dano colateral sobre a saúde pública. Os distúrbios nos sistemas hospitalares e o pânico social precipitaram abalos sísmicos na rotina sanitária, provocando déficits nas campanhas de vacinação e no tratamento de doenças e outras casualidades clínicas.

A OMS estima que 80 milhões de crianças com menos de um ano foram prejudicadas por rupturas nos programas de imunização, expondo-as a doenças como difteria, sarampo e pólio. No Brasil, enquanto a covid-19 avança, o sistema de saúde combate outros surtos infecciosos, como influenza, dengue e outros patógenos transmitidos pelo Aedes aegypti (como zika, chikungunya e febre amarela), além de outros vírus que pareciam superados, como o sarampo, cujo surto teve início no ano passado, com 18 mil casos, em razão do déficit de vacinação. Em 2019, nenhuma das vacinas para crianças de até um ano alcançou a meta. Desde 2016, o País não cumpre a meta de vacinação da tríplice viral (para sarampo, caxumba e rubéola). A pandemia deteriorou ainda mais este quadro.

Um levantamento da OMS alerta para o impacto da covid-19 sobre doenças não comunicáveis. Mais da metade (53%) dos países sofreu distúrbios nos tratamentos para hipertensão; 49% no tratamento de diabetes; 42% no tratamento de câncer; e 31% nas emergências cardiovasculares. Serviços de reabilitação – chave, entre outras coisas, para a recuperação de doenças severas causadas pela covid-19 – sofreram alterações em 63% dos países. Na quase totalidade dos países (94%) os profissionais responsáveis por doenças não comunicáveis foram parcial ou totalmente realocados nas frentes de combate à covid-19.

Os cancelamentos de tratamentos planejados, a redução dos transportes públicos e a falta de quadros são as razões mais comuns para a descontinuidade ou redução dos serviços hospitalares. Um em cada cinco países acusou a falta de remédios, diagnósticos e outras tecnologias. Um modelo estatístico publicado na revista The Lancet apenas sobre a mortalidade colateral de mães e crianças em países em desenvolvimento calcula que em seis meses, entre o cenário menos severo (10% de redução na cobertura) e o mais (51%), as mortes adicionais de crianças podem variar de 253 mil a 1,1 milhão; e a de mães, de 12 mil a 56 mil.

Por toda a parte despontam registros de aumentos expressivos de mortes em casa. São pessoas em estado grave (por covid-19 ou outra doença) que muitas vezes sofrem uma piora rápida e inesperada e hesitam em acessar os serviços de saúde com medo do vírus. No Brasil, entre 16 de março e 30 de abril, as mortes em casa aumentaram 10,4%. Em São Paulo esse índice chegou a 14,5%; no Rio de Janeiro, 40%; e no Amazonas, 149%.

Para piorar, há a epidemia de desinformação. No Irã, 700 pessoas morreram após ingerir metanol, crendo que isso eliminaria o vírus. O caso seria cômico, se não fosse trágico, e se governantes como Jair Bolsonaro ou Donald Trump não estivessem empenhados em recomendar tratamentos alternativos, com consequências possivelmente letais. Trump chegou a sugerir a ingestão de desinfetante contra o vírus.

Entre as estratégias para mitigar estes impactos colaterais, além de campanhas de informação, a mais importante é a intensificação da telemedicina. Mas ainda tomará um tempo até que se conheça a plena extensão do impacto da covid-19 na saúde pública. Os dados sobre a mortalidade e danos indiretos são opacos, quando não invisíveis. E isso sem falar nos impactos sobre a saúde mental, de difícil mensuração, mas com efeitos certos sobre a saúde física – a começar pela redução da imunidade. Junto a isso, as quedas severas nas receitas dos hospitais podem desestruturá-los por meses ou anos.

É essencial que autoridades privadas e públicas mapeiem o mais rápido possível os efeitos colaterais da covid-19 e integrem estes dados às estratégias de resposta à pandemia. Isso pode evitar muitas mortes agora, e será indispensável para robustecer a resiliência dos sistemas sanitários, salvando muitas vidas no futuro.

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