Os desafios da Otan

Reunião da Cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) consolidou e ampliou abordagem de segurança, mas expôs conflitos internos

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2019 | 05h00

Setenta anos após ser criada para confrontar o império soviético de Stalin e 30 anos após a queda da Cortina de Ferro, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) congregou os líderes dos 29 países-membros para uma celebração ambivalente. Por um lado, a cúpula consolidou e ampliou sua “abordagem de segurança de 360 graus”, mas, por outro, expôs sem meias palavras seus conflitos internos.

Numa tentativa de mostrar unidade após os confrontos entre seus líderes, a Aliança concordou em promover em 2020 uma revisão de seus objetivos estratégicos. É uma das reações às provocações do presidente francês, Emmanuel Macron, que recentemente afirmou que, devido às manobras erráticas dos EUA e à desarticulação em zonas críticas como a Síria, a Otan estaria sofrendo “morte cerebral”. Numa curiosa inversão de papéis, coube a Donald Trump, que outrora acusou a Aliança de “obsoleta”, desagravar as declarações que classificou de “muito insultuosas” e “muito ignóbeis”.

A cúpula expôs também os atritos entre Macron e o presidente da Turquia, Tayyip Erdogan, em razão dos ataques no norte da Síria a militantes curdos, aliados da França, Grã-Bretanha e até recentemente dos EUA no combate ao Estado Islâmico. A Turquia, por sua vez, chegou a ameaçar bloquear os planos da Otan para a defesa da Polônia e dos Estados bálticos, caso a milícia curda YPG não fosse reconhecida como terrorista.

Colegas europeus do presidente francês também têm se inquietado com suas declarações relativizando a ameaça de Vladimir Putin, temerosos de que isso debilite o consenso formado após a invasão da Crimeia, em 2014, em razão do qual a Otan vem promovendo operações de tropas multinacionais nos Estados bálticos e na Polônia.

Tais divergências permitem questionar até que ponto, no caso de uma improvável agressão a um dos aliados, o pacto de defesa mútua, pilar de sustentação da Aliança consagrado no artigo 5.º da sua Constituição, seria efetivo. Isso num momento em que, como diz a declaração oficial da cúpula, aos velhos desafios pós-guerra fria, como as hostilidades da Rússia, o terrorismo, as imigrações irregulares, somam-se novos riscos “emanando de todas as direções estratégicas”, como as ameaças cibernéticas e híbridas, e - numa menção inédita - a “influência crescente da China”.

Contrariando Macron, a declaração foi bastante enfática quanto aos riscos que a Rússia impõe à segurança euro-atlântica, sobretudo após a ampliação de seu arsenal de mísseis que levou neste ano à revogação do Tratado de Forças Nucleares de Médio Alcance.

A declaração sugere protocolarmente que a China apresenta “tanto oportunidades quanto desafios”. Em entrevista, o secretário-geral Jens Stoltenberg foi mais explícito: “Os vemos no Ártico, na África, os vemos investindo pesado em infraestrutura europeia e claro no ciberespaço”. Como ele notou, a China logo será a maior economia do mundo e já tem o segundo maior orçamento de defesa. “Nos últimos cinco anos, a China acrescentou 80 navios e submarinos à sua marinha, o equivalente à marinha britânica”, e “desenvolveu um míssil intercontinental capaz de atingir os EUA e a Europa.” Os desafios extrapolam a esfera militar: “A China está se tornando líder em tecnologia, do 5G ao reconhecimento facial, e da computação quântica ao acúmulo de vastas quantidades de dados globais”.

Mas entre ameaças reais e potenciais, a Otan chega aos 70 anos em forma. Não sem propósito, declara-se como “a mais forte e mais bem-sucedida Aliança da história”. A Otan responde por 70% dos gastos mundiais com defesa. Neste ano, nove países atingiram a meta de aplicar 2% de seu PIB em defesa, e em 2020 o Canadá e os europeus investirão US$ 130 bilhões a mais do que investiram em 2016. O que a cúpula mostrou é que o maior desafio da Aliança talvez venha de dentro. Se há algo positivo a se tirar da retórica abusada de líderes como Macron e Trump, é que ela expõe às claras as fissuras que cabe à diplomacia sanar.

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