Os desafios dos números

Com ajustes e com a reforma da Previdência, o governo poderá manter baixa a inflação e obter superávit primário a partir de 2022

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

05 Fevereiro 2019 | 03h00

Conseguir apoio parlamentar será apenas uma das condições de sucesso do presidente Jair Bolsonaro. Além de se entender com os congressistas, ele terá também de governar de olho no mercado - e o mercado, em contrapartida, poderá ajudá-lo a encontrar o caminho. Quase um sonho para o governo, juros baixos até o fim do ano estão nas projeções do setor financeiro e das principais consultorias, mas essas projeções dependem de alguns dados e de alguns pressupostos muito importantes. A taxa básica de juros, a Selic, poderá permanecer em 6,50% até o começo de 2020 se a inflação continuar contida, se a política monetária americana for tão suave quanto indica o banco central dos Estados Unidos e se o governo brasileiro avançar no ajuste de suas contas e na implantação da reforma da Previdência. Pela primeira vez o mercado acaba de estender até o início do próximo ano a taxa básica hoje em vigor. A mediana das estimativas passou de 7% para 6,50% na última pesquisa Focus, divulgada nesta segunda-feira pelo Banco Central.

A pesquisa é publicada só com os números, mas as condições implícitas são conhecidas de quem acompanha as avaliações do mercado e, além disso, são discutidas no dia a dia por especialistas. Juros moderados combinam com preços bem comportados. A inflação estimada para o ano caiu de 4% para 3,94%. Não se esperam fortes pressões inflacionárias com a economia em crescimento ainda modesto, mas a aposta pode mudar, nos próximos meses, se o governo descuidar da pauta de ajustes e reformas ou se tropeçar de forma desastrada na execução de sua estratégia econômica.

Do lado externo, a política de juros do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) terá um peso considerável. Se essa política for moderada, como se espera, produzirá pouca ou nenhuma pressão sobre os mercados de câmbio. O dólar previsto para o fim deste ano passou de R$ 3,75 para R$ 3,70 na pesquisa Focus. Se isso se confirmar, o câmbio deixará de ser um fator inflacionário relevante em 2019. Mas o preço do dólar depende também de fatores internos, e um dos mais importantes é a confiança na política econômica.

Se essa política for mal formulada ou mal conduzida, poderá afetar o câmbio mesmo num cenário de calmaria internacional e a cúpula do governo brasileiro terá de considerar também esse dado. O preço do dólar é um dos mais importantes para a economia. Um de seus efeitos, no caso de valorização excessiva em relação ao real, é o aumento de vários preços, com perda para as famílias e complicações para vários tipos de negócio.

A perspectiva de inflação contida, juros moderados e câmbio confortável está associada também a um pressuposto pouco animador. Até 2022, último ano de mandato do atual governo, a economia brasileira crescerá mais que em 2018, mas com um mínimo de dinamismo. Para todo o período está projetada a taxa anual de 2,50%, inferior à da maioria dos países emergentes e também à média esperada para os países da América Latina.

Também esse número contém uma importante mensagem para o governo. O Brasil, segundo as estimativas correntes, só escapará desse desempenho medíocre se algo for feito - se possível a partir deste ano - para elevar sua capacidade produtiva e seu potencial de crescimento econômico.

O governo pouco tem informado sobre isso. Faltam ainda informações claras sobre como se cuidará da ampliação e da modernização da infraestrutura e do fortalecimento das empresas privadas. Faltam informações, também, sobre objetivos estratégicos e até sobre a identificação de gargalos.

Com ajustes e com a reforma da Previdência, o governo poderá manter baixa a inflação e obter superávit primário a partir de 2022, segundo a pesquisa Focus. Haverá vitórias importantes e um desastre será evitado, mas será preciso mais que isso para dinamizar a economia. Esse contraste é uma das principais mensagens embutidas na pesquisa. O presidente Bolsonaro deveria considerá-la seriamente.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.