Os emergentes e os riscos externos

Aperto monetário nos Estados Unidos pode tornar mais difícil a recuperação econômica dos países emergentes

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2022 | 03h00

O rápido aumento do número de pessoas infectadas pela variante Ômicron da covid-19 já inibe as projeções para a economia brasileira em 2022. Novos elementos no cenário internacional tornam o quadro ainda menos animador. O endurecimento da política monetária dos Estados Unidos, para conter a alta média dos preços no país, pode ter impacto nas demais economias, em particular nas emergentes. Quanto mais frágeis suas condições financeiras e fiscais, maior poderá ser o efeito das decisões do Federal Reserve Board (Fed, o banco central americano).

As expectativas dos analistas consultados semanalmente pelo Banco Central para a elaboração de seu boletim Focus estão se deteriorando há tempos e, no resultado mais recente, a projeção para o crescimento da economia brasileira neste ano ficou em 0,28%. Uma semana antes fora de 0,36% e um mês antes, de 0,50%. Alertas do exterior podem reforçar essa tendência. Incertezas geradas pelo governo Bolsonaro agravam a situação.

Há pouco, o Fed indicou que vai elevar os juros antes do que previam os analistas em todo o mundo. Os possíveis impactos dessa decisão “tornam ainda mais incertas” as perspectivas para os países emergentes, adverte o Fundo Monetário Internacional (FMI) em artigo assinado por Stephan Danninger, Kenneth Kang e Hélène Poirson.

Preocupações sobre a inflação doméstica e sobre o custo de ativos cotados em moeda estrangeira já forçaram alguns países a aumentar os juros internos, diz o artigo, que cita os casos do Brasil, da Rússia e da África do Sul. Mas há outros pontos do texto que, embora tratem dos países emergentes em geral, parecem referir-se especificamente ao Brasil.

Ao contrário dos Estados Unidos, a recuperação nesses países tem sido mais lenta e menos vigorosa e a situação do mercado de trabalho é bem menos confortável. Em alguns deles, a inflação é bem mais alta e o desemprego mais acentuado, como no Brasil.

Do lado positivo, o Banco Central do Brasil vem mantendo as linhas da política monetária e o País dispõe de reservas cambiais em volume robusto. São fatores que, corretamente administrados, podem ajudar a manter o mercado de câmbio relativamente calmo. Mas a preservação do ambiente de relativa normalidade, adverte o FMI, não prescinde de um ajuste macroeconômico.

É nesse ponto que as vulnerabilidades do Brasil emergem. A eficaz combinação de escolhas difíceis que compatibilizem economia interna frágil com estabilidade dos preços e equilíbrio das contas externas é o caminho indicado. Mas, sob o governo Bolsonaro, além da gestão prudente da política monetária, pouco se pode apontar de positivo no sentido da estabilidade dos preços e de estímulos à recuperação da atividade econômica.

A desvalorização da moeda nacional ante o dólar, bem mais acentuada aqui do que nos demais países emergentes, decorre da insegurança que atos e palavras irresponsáveis do presidente da República disseminam diariamente. Sendo este um ano eleitoral, o risco de desatinos do presidente tende a aumentar.

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