Os juros e a névoa de 2021

O Copom avisa de novo: juros subirão se faltar confiança na política fiscal

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2020 | 03h00

A neblina do próximo ano continua espessa demais para os faróis do Banco Central (BC). Não há como dizer como ficará a economia em 2021, quando cessarem os auxílios emergenciais. A incerteza continua “acima da usual”, segundo os membros do Copom, o Comitê de Política Monetária do BC. Como a inflação permanece bem abaixo da meta, é prudente, por enquanto, deixar em 2% a taxa básica de juros, a Selic. Apesar dos sinais de recuperação, convém preservar o incentivo à expansão do crédito e à retomada dos negócios. Depois de nove cortes consecutivos, no entanto, dá-se uma pausa e mantém-se a taxa no menor nível da série iniciada em junho de 1996.

A intenção é preservar o estímulo enquanto as expectativas de inflação continuarem moderadas. A taxa básica poderá subir, avisa o Copom, quando as expectativas e as projeções apontarem, no cenário básico, uma alta de preços bem mais próxima da meta oficial, de 3,75% em 2021 e de 3,50% em 2022. Há espaço, ainda, para manutenção dos juros. Na melhor hipótese, admite-se até algum corte adicional, mais moderado que os anteriores, mas isso parece, agora, muito improvável.

Há uma curiosa mistura de confiança e desconfiança nas avaliações do Copom. A incerteza sobre a economia em 2021 é um dos pontos centrais da nota divulgada depois da última reunião. O comunicado menciona o fim das medidas emergenciais, previsto para 31 de dezembro. A gestão responsável das contas públicas, somada ao avanço na pauta de reformas, é também citada como essencial para os juros baixos. Ao manter a Selic, no entanto, o Copom parece ainda apostar na seriedade do governo. Ou estará apenas dando um crédito de confiança?

Seja como for, a decisão é duplamente importante. Além de preservar o estímulo ao crédito, o Copom continua favorecendo o Tesouro com juros moderados para a dívida pública. Essa ajuda será ainda mais importante no próximo ano, quando o governo terá de administrar uma dívida muito aumentada. No fim de 2020 o endividamento estará próximo de 100% do PIB. O objetivo do Ministério da Economia era um limite de 80%, mas esse e outros critérios foram abandonados, pelo menos até dezembro, por causa da pandemia.

O governo terá de cuidar, em 2021, de uma dívida muito acima dos níveis observados no mundo emergente. Também terá de controlar o déficit primário (sem o custo dos juros) como se o País tivesse voltado à situação pré-pandemia. O mercado saberá das dificuldades, mas será rigoroso, quase certamente, ao avaliar o empenho das autoridades.

Desse julgamento vão depender as condições de financiamento do governo, incluída a rolagem de sua dívida. Não adiantará o Copom manter os juros básicos em 2%, se o mercado perder a confiança na gestão fiscal. O Copom apontou esse risco várias vezes. A advertência reaparece no comunicado da quarta-feira. Desprezar esse alerta com o pretexto de estimular a economia será muito perigoso. Se o mercado se inquietar, os juros subirem e o crédito ficar mais curto, a recuperação dos negócios será prejudicada.

A política econômica da próxima fase terá de combinar um claro compromisso de seriedade fiscal com alguma estratégia, ainda desconhecida, de apoio à retomada dos negócios. Essa estratégia terá de ser compatível com as limitações das finanças públicas. Não há espaço para algo diferente.

A restrição seria perceptível mesmo sem as advertências do Copom. A insegurança quanto ao governo manifesta-se de várias formas. Um dos efeitos mais visíveis é a instabilidade cambial. O dólar instável afeta os custos e complica o planejamento empresarial. Além disso, o câmbio já se reflete em alguns preços finais, mesmo com a demanda muito moderada.

A principal fonte de insegurança é o presidente Jair Bolsonaro. Ocupado com sua reeleição, ele parece planejar 2022 como se os problemas fiscais de 2021 fossem ficções criadas por adversários ou por uma imprensa alarmista, como os perigos da pandemia. O próximo ano acabará muito mal, se os problemas fiscais forem desprezados como uma gripezinha.

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