Os limites da luta política

A CNN recusou dois anúncios de Trump. O motivo alegado é que há falsas acusações contra adversários dele

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2019 | 03h00

A rede de TV norte-americana CNN recusou-se a divulgar dois anúncios da campanha do presidente Donald Trump à reeleição. Trata-se de uma decisão rara não apenas pela rejeição dos anúncios em si, mas pelo fato de que aconteceu quando ainda falta mais de um ano para a eleição – em geral, os anúncios mais polêmicos dos candidatos tendem a ser questionados somente às vésperas do pleito. O motivo alegado pela CNN foi que os anúncios em questão contêm falsas acusações contra adversários políticos de Trump.

A decisão da CNN é importante porque recorda que nem tudo é aceitável em política. Muitos políticos se sentem à vontade para “fazer o diabo” nas campanhas eleitorais, como salientou certa feita a presidente cassada Dilma Rousseff. Mas mesmo o tinhoso enrubesceria diante da desenvoltura com que Trump e seus aprendizes mundo afora se dedicam a elevar falsidades à categoria de verdades absolutas, borrando os limites entre o real e o fantasioso e escancarando o terreno para a demagogia. 

A democracia obviamente é uma impossibilidade em um ambiente intoxicado dessa forma. Sem que se possa chegar a um acordo sobre a realidade, a partir de dados aceitos por todos como expressão do real, não há a menor possibilidade de avanço coletivo na direção de soluções para os problemas nacionais. Resta o antagonismo entre extremistas à esquerda e à direita, cada qual com sua “verdade”.

Em nome de seu papel fundamental na preservação do espírito democrático, a imprensa em geral, como fez a CNN, deve reagir serena, mas firmemente, contra as imposturas travestidas de “opinião” que têm contaminado o debate político em muitas partes do mundo.

A CNN recusou os anúncios de Trump porque estes desrespeitavam os critérios de publicidade da emissora. Numa das peças, tenta-se criar um escândalo de corrupção envolvendo o ex-vice e pré-candidato democrata Joe Biden, acusando-o, sem prova, de oferecer US$ 1 bilhão à Ucrânia para que fosse demitido o procurador ucraniano que investigava uma empresa vinculada a Hunter Biden, filho do presidenciável democrata. O caso está na origem do pedido de impeachment contra Trump, que teria pressionado o governo ucraniano a investigar o filho de Biden. No mesmo anúncio, Trump atacou violentamente a imprensa, ao dizer que “os cachorrinhos da imprensa” se alinham aos democratas para esconder a história, citando em particular dois jornalistas da CNN.

“Além de menosprezar a CNN e seus jornalistas, o anúncio faz afirmações que foram comprovadamente declaradas falsas por vários meios de comunicação, incluindo a CNN”, disse um porta-voz da emissora ao justificar a decisão de cancelar o anúncio. Como resposta, um representante da campanha de Trump disse que o anúncio era “inteiramente preciso” e que a CNN “passa o dia inteiro protegendo Joe Biden”.

Outro anúncio da campanha de Trump recusado pela CNN definia como “golpe” da oposição democrata o processo de impeachment contra o presidente. A emissora considerou que “é impreciso usar a palavra ‘golpe’ para descrever um processo legal prescrito na Constituição”. Um terceiro anúncio, que se limitava a mostrar realizações do governo Trump, foi aceito pela CNN.

A mensagem é clara: a política não pode ser capturada por aqueles que têm a intenção de destruí-la. Não se trata de impedir o livre exercício da imaginação – que é próprio da política, pois indica disposição de buscar apoio para mudar a realidade –; trata-se, sim, de dificultar a vida dos que menosprezam a democracia.

Não é o que faz, por exemplo, o Facebook, que decidiu não vetar nenhum anúncio político nos Estados Unidos, mesmo os flagrantemente mentirosos, segundo informou o jornal The Guardian. Pelos critérios do Facebook, acusações falsas como as de Trump contra seus adversários se enquadram na categoria de “opinião” – logo, são permitidas.

O Facebook informou que não se considera “árbitro” de debates políticos. A questão é que não há debate possível quando a mentira prevalece.

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