Os métodos brutais de Trump

Os líderes democratas já não hesitam em chamar publicamente o que Trump está fazendo de extorsão: ou ele consegue os R$ 5,7 bilhões que quer para o muro ou mantém os serviços públicos paralisados

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

11 de janeiro de 2019 | 03h00

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, atropela cada vez com mais truculência as regras da convivência civilizada entre adversários políticos, deixando seu país – que já começa a pagar por isso – numa situação particularmente difícil. Sua obstinação em impor seus pontos de vista não parece ter limite. Trata-se agora da construção de um muro na fronteira com o México, um projeto mais do que discutível, que é uma de suas ideias fixas desde a campanha eleitoral, e cujo custo a oposição democrata, que agora tem maioria na Câmara dos Representantes, se recusa a aprovar.

Sem um acordo em torno dos US$ 5,7 bilhões exigidos por Trump para dar andamento ao muro, o bloqueio do orçamento da União acarreta a paralisação progressiva da administração federal e a suspensão total ou parcial do pagamento de 800 mil funcionários. Isto já aconteceu no passado, mas raras vezes com tão longa duração e com essas características: diálogo tão difícil e áspero entre presidente e oposição e, por isso, cercado de grande pessimismo quanto ao seu desfecho.

Sem conseguir convencer a oposição, após perder a maioria numa das Casas do Congresso nas últimas eleições legislativas, o presidente se mostra disposto a lançar mão dos meios que julga ter a seu dispor, ainda que eles choquem seus próprios correligionários pela brutalidade e a perigosa ousadia. Na terça-feira passada ele foi à televisão tentando jogar a população contra seus adversários democratas, ao afirmar que o muro é essencial para a segurança dos Estados Unidos e indispensável para romper o ciclo de imigração ilegal da América Latina, que entra pelo México e prejudicaria as mulheres e crianças norte-americanas.

Especialistas sustentam que Trump vem exagerando deliberadamente o perigo da imigração, argumento que tem sido usado por ele como instrumento político para enganar a opinião pública. Agora ele vai além, ameaçando decretar estado de emergência nacional, medida que lhe daria poderes suficientes para dispor das verbas necessárias para dar andamento às obras do muro. O problema é que, segundo especialistas, não é claro que o estado de emergência possa ser empregado na atual situação e para resolver tais problemas. Isto provocaria uma batalha nos tribunais, como já deixaram claro os democratas.

Trump deu mais uma demonstração de seus métodos truculentos durante encontro na Casa Branca com os líderes democratas Chuck Schumer, no Senado, e Nancy Pelosi, na Câmara. A reunião, na verdade, não chegou a haver. Quando os democratas reiteraram que não aprovariam verbas para o muro, Trump esmurrou a mesa, levantou-se e deixou o recinto. Segundo seu próprio relato, considerou aquilo “total perda de tempo” e disse “Bye bye”, numa nova manifestação de desprezo e arrogância.

Não admira que os ânimos estejam ficando cada vez mais exaltados por parte de Trump e que os democratas se fechem em suas posições. Tanto pela linguagem grosseira do presidente como por sua intransigência e seus métodos brutais, não se trata mais de uma disputa política. Os líderes democratas já não hesitam em chamar publicamente o que Trump está fazendo de extorsão: ou ele consegue os R$ 5,7 bilhões que quer para o muro ou mantém os serviços públicos paralisados. O refém da extorsão é a população.

Os democratas contam com duas coisas para forçar Trump a ceder. Uma é o cansaço e a revolta da população com a falta de pagamento do salário dos funcionários públicos e a paralisia da administração, que já atinge setores essenciais. Outra são as deserções de parlamentares republicanos que não concordam com a intransigência de Trump e seus métodos. “Esperamos que a cada dia que passa mais representantes republicanos rejeitem a paralisação do governo”, afirmou o deputado democrata Hakeem Jeffries. Tanto esse risco existe que Trump se encontrou quarta-feira passada com congressistas republicanos num esforço para manter a união do partido.

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