Os números do IDH

Brasil perdeu cinco posições, e relatório do Pnud ainda não reflete o impacto da pandemia

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2020 | 03h00

Embora venha apresentando um crescimento anual médio de 0,77 em seu Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), o Brasil tem sido ultrapassado no ranking por países vizinhos que enfrentam uma crise econômica tão grave ou até pior do que a nossa, como é o caso da Argentina. Essa é uma das conclusões do Relatório de Desenvolvimento Humano do ano de 2019, que acaba de ser divulgado. Ele é elaborado desde 1990 pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).

Em 2019, o índice brasileiro subiu de 0,672 para 0,765, com relação ao relatório anterior. Mesmo assim, o Brasil perdeu cinco posições, tendo caído do 79.º para o 84.º lugar, num total de 189 países analisados pelo Pnud. Os primeiros colocados no ranking são países europeus, liderados pela Noruega, seguida pela Suíça, pela Irlanda e pela Alemanha. Na América Latina, o IDH do Brasil é menor do que o do Chile, do Uruguai, do Peru, da Colômbia e da Argentina. Todos esses países tiveram um crescimento superior em indicadores importantes. Entre outros quesitos, o IDH leva em conta expectativa de vida ao nascer, taxa de mortalidade materna, nível de escolaridade, renda média per capita, desigualdade de gênero e índice de participação feminina tanto na força de trabalho quanto na representação das Casas Legislativas.

Entre os principais fatores que explicam a queda de posições do Brasil no Relatório de Desenvolvimento Humano destacam-se a desigualdade de renda, o baixo desempenho do setor educacional no primeiro ano de mandato do presidente Jair Bolsonaro e a ausência de uma política eficiente de preservação ambiental. Neste ponto, o relatório chama a atenção para o peso das emissões de gás carbônico por habitante e da preservação de recursos naturais no IDH. Segundo os técnicos do Pnud, por causa do modo como passou a ser tratada desde a posse de Bolsonaro, a Amazônia está correndo o risco de se converter em savana em decorrência da perda de matas causadas por incêndios e por mudanças do uso da terra. O relatório aponta ainda que, juntamente com a Bolívia, o Brasil teve grandes perdas de florestas primárias em 2018 e 2019.

Ainda na América Latina, o Brasil está à frente apenas do Suriname, Paraguai, Bolívia, Venezuela e Guiana. Já em comparação com os membros do Brics, grupo de países com economias emergentes, o Brasil perde para a Rússia. Contudo, aparece à frente da China, da África do Sul e da Índia. As três últimas posições no IDH de 2019 são ocupadas por países africanos – Chade, República Centro-Africana e Níger. O IDH deste país, o último da lista, é quase três vezes inferior ao índice alcançado pela Noruega.

Como os números do Relatório de Desenvolvimento Humano são relativos somente ao ano de 2019, eles ainda não refletem o impacto causado pela pandemia de covid-19 no desenvolvimento humano dos 189 países avaliados. Mas os responsáveis pelo levantamento deixaram claro que, por ter gerado uma grave crise de saúde pública em todo o mundo, afetado drasticamente o sistema educacional e acarretado uma queda significativa no nível de atividade econômica, o relatório de 2020 registrará pela primeira vez, desde que começou a ser elaborado, uma queda no IDH global.

“Nossas ações estão causando mudanças climáticas, colapso da biodiversidade, acidificação dos oceanos, poluição do ar e da água e degradação da terra. Estamos desestabilizando os próprios sistemas de que precisamos para sobreviver a uma velocidade e escala sem precedentes”, conclui o relatório. Segundo seus autores, pela primeira vez, em 200 mil anos, o planeta será moldado por hábitos humanos – e não o contrário, com os homens se adaptando ao planeta. Por isso, afirma um dos coordenadores do levantamento, Achim Steiner, chegou “a hora de usar o poder de controle humano sobre a natureza para redefinir o que entendemos como progresso”. Sem isso, diz ele, o destino da humanidade estará em risco.

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