Os números do Pisa

Em vez de discutir ideologia e religião, governo deveria se inspirar na experiência dos países que lideram o ranking

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2019 | 03h00

Apesar de não ter sido o país latino com pior desempenho no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa, na sigla em inglês), como o ministro da Educação vinha prevendo desde o mês passado, o Brasil mais uma vez mostrou que se encontra praticamente estagnado em matéria de qualidade de ensino.

Ainda que a nota dos estudantes brasileiros com idade de 15 anos tenha apresentado pequena melhora na mais importante avaliação da educação básica do mundo, 4 em cada 10 adolescentes não conseguem identificar a ideia central de um texto, ler gráficos, resolver problemas com números inteiros e entender experiências científicas simples.

Aplicado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) a cada três anos, o Pisa avaliou mais de 600 mil alunos de 79 países e deu ênfase à leitura em sua última edição, realizada em 2018. Do total de alunos avaliados, 17,5 mil foram brasileiros, sendo a maioria matriculada em escolas públicas. A prova, que também inclui matemática e ciência, tem questões abertas e de múltipla escolha e é feita por computador. Nesta edição, além disso, a OCDE passou a medir as habilidades dos estudantes de analisar, avaliar e checar a veracidade do que está escrito e identificar as fontes e o que o autor pretendeu expressar.

Em leitura, o Brasil ficou em 54.° lugar no ranking. Segundo a avaliação, 10% dos jovens no mundo conseguem diferenciar fato de opinião ao ler um texto, habilidade classificada como complexa pela OCDE. No Brasil, são 2% e, nesse grupo, não há jovens de baixa renda. Do total de estudantes brasileiros avaliados, só 26,7% entendem o significado literal de frases ou passagens curtas.

A pior posição do Brasil foi em matemática, tendo ficado na 70.ª colocação. Do total de estudantes brasileiros avaliados, apenas 32% estão no nível considerado básico ou acima dele – no máximo, conseguem comparar distâncias entre duas rotas ou converter preços em diferentes moedas. Na China, 16% dos estudantes estão no nível mais alto da disciplina, com raciocínio matemático considerado avançado. Entre os países da OCDE, só 2,4% chegam a esse patamar.

Já em ciência, apesar de uma melhora considerada pela OCDE como estatisticamente irrelevante, o Brasil ficou na 66.ª colocação entre 79 países. Segundo o Pisa, apenas 1% dos estudantes brasileiros atingiu os maiores níveis de desempenho, dominando conceitos científicos sobre vida e espaço e detendo conhecimentos superiores ao que se espera no currículo para a faixa etária de 15 anos.

Desde que o Pisa foi aplicado pela primeira vez, o Brasil sempre esteve abaixo da média dos países participantes, a maioria deles desenvolvidos. Entre 2000 e 2010, o País destacou-se por ser um dos que mais avançaram na nota de matemática. Nos anos seguintes, porém, os resultados se estagnaram por causa, entre outros problemas, de mudanças abruptas da política educacional, determinadas mais por razões políticas do que pedagógicas. Esse é um ponto fundamental, pois os países que estão no topo do ranking do Pisa são, justamente, os que mantêm a continuidade de sua política há anos e usam os resultados do Pisa para aperfeiçoá-la.

Essa é a lição a ser tirada da última edição do Pisa. Infelizmente, ela ainda não foi aprendida pelas autoridades educacionais do governo Bolsonaro, cuja atuação no setor, com quase um ano de mandato, tem sido desastrosa. Além de não ter convertido a qualidade do ensino básico em prioridade, ele tem se revelado incapaz de promover uma articulação entre o MEC e as Secretarias de Educação estaduais.

Em vez perder tempo discutindo ideologia e religião no ensino básico, o governo deveria se inspirar na experiência dos países que lideram o ranking do Pisa. Se não sair da inércia em que se encontra, estará sacrificando a formação das novas gerações e impedindo o País de formar o capital humano de que precisa para voltar a crescer.

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