Os órfãos da pandemia

Ao todo, cerca de 113 mil brasileiros com até 18 anos perderam ou o pai ou a mãe neste período

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2021 | 03h00

Com base num estudo divulgado pela conceituada revista científica The Lancet, que envolveu 21 países sob a coordenação dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, em colaboração com o Imperial College e a Universidade de Oxford, duas respeitadas instituições acadêmicas do Reino Unido, a revista Pesquisa, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), chamou a atenção para mais um importante problema trazido pela pandemia. 

Trata-se da desestruturação familiar que vem sendo causada pelo expressivo crescimento do número de crianças que ficaram órfãs, por causa da morte de seus pais, mães ou avós, em decorrência da covid-19. Segundo o estudo, entre março de 2020 e abril deste ano, mais de 1,5 milhão de crianças desses 21 países perderam os familiares dos quais dependiam por causa da pandemia. 

Os países estudados concentraram 77% das mortes por doenças provocadas pela covid-19. Segundo o estudo, em todos esses países morreram mais pais do que mães e, em alguns, a taxa foi cinco vezes mais alta entre os homens. Com base nesses dados, os autores do levantamento criaram modelos matemáticos para estimar as mortes de cuidadores, principais (pais e mães) ou secundários (avós e tios), decorrentes do coronavírus e monitorar o agravamento do problema. 

Os índices mais elevados de morte dos cuidadores primários foram registrados no Peru, com 10,2 órfãos por mil crianças, na África do Sul (5,1) e no México (3,5). Com uma taxa de 2,4 órfãos para cada mil crianças, o Brasil ficou em quarto lugar nesse ranking. Ao todo, cerca de 113 mil brasileiros com até 18 anos perderam ou o pai, ou a mãe, ou ambos. O problema é que muitas crianças e jovens vivem em famílias monoparentais, com baixa renda. Segundo o IBGE, 40% das famílias brasileiras são chefiadas por mães ou avós. 

“O crescimento da orfandade representa uma pandemia oculta associada à covid-19. Ao perder seus cuidadores, essas crianças e jovens podem enfrentar várias consequências adversas, como pobreza, violência e transferência para creches. Para mitigar os efeitos da situação, é necessário acelerar a distribuição equitativa de vacinas e oferecer apoio psicossocial e econômico para ajudar as famílias a criarem essas crianças sem cuidadores principais, evitando, desse modo, que elas acabem sendo enviadas para orfanatos”, afirma a médica epidemiologista Susan Hills, uma das autoras do estudo.

Além disso, nas famílias em que pai e mãe precisam trabalhar para compor a renda familiar, a perda de recursos decorrente da morte de um deles está levando crianças e jovens a abandonarem as salas de aula para ingressar no mercado de trabalho. Outro problema associado a esse é o fato de que, em 20,6% dos domicílios brasileiros, a renda de pessoas com mais de 60 anos corresponde a mais da metade do orçamento familiar. E em 18,1% dos lares do País a subsistência familiar depende exclusivamente da renda de idosos. “O apoio entre gerações por meio de arranjos familiares tem funcionado como estratégia de sobrevivência no País”, afirma Ana Amélia Camarano, economista e pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). 

Como a incidência de mortes pela covid-19 é bastante alta nas faixas etárias acima de 60 anos, esse é mais um fator que está levando crianças e jovens a deixar de estudar para trabalhar. “A grande quantidade de órfãos da pandemia pode desarticular as possibilidades de o Brasil contar com uma população mais produtiva e qualificada, aprofundando as desigualdades de renda”, diz Juliana Inhasz, professora de economia do Insper.

O estudo do CDC mostra como os países desenvolvidos vêm se preparando para enfrentar os problemas sociais decorrentes da pandemia, como é o caso do crescimento da orfandade, quando ela passar. Já no Brasil, cujo governo é chefiado por um presidente inepto, negacionista e sem compaixão pelos mortos pela pandemia, pouca ou nenhuma atenção tem sido dada a esse problema. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.