Os prumos da Otan

Aliança também debateu desafios como as mudanças climáticas e novas tecnologias

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2021 | 03h00

A cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) marcou um passo significativo na sua adaptação ao novo desenho geopolítico do século 21. A médio prazo, isso implica alinhar os ponteiros da agenda “Otan 2030”. A curto prazo, os 30 membros da Aliança se comprometeram a produzir até 2022 a nova versão de seu Conceito Estratégico, o documento que define suas linhas de ação, revisado há 10 anos. Além das novas ameaças de seu velho adversário, a Rússia, a Otan tratou de desafios como as mudanças climáticas, tecnologias de ponta e, sobretudo, a ascensão da China.

A cúpula foi a primeira com o presidente americano Joe Biden, sucessor de Donald Trump, que, entre suas diatribes antimultilateralistas, chegou a chamar a Aliança de “obsoleta”. O alívio, ainda que expresso em linguagem diplomática, foi indisfarçável. “Nos últimos quatro anos tivemos alguns desafios no relacionamento transatlântico”, disse o secretário-geral, Jens Stoltenberg. “Temos uma oportunidade única de abrir um capítulo novo no relacionamento entre a América do Norte e a Europa.” O capítulo é novo, alguns dramas são antigos. Em 2014, os aliados se comprometeram a despender 2% de seu PIB em defesa até 2024, mas só 1/3 atingiu a meta. Os EUA continuam a pressioná-los, com boas razões.

Entre as melhores está a necessidade de adaptação à revolução tecnológica. “Por décadas, os aliados da Otan lideraram o avanço tecnológico”, disse Stoltenberg, “mas isso não é mais óbvio”, seja pelos investimentos em tecnologia da Rússia e sobretudo da China, seja porque a antiga dinâmica do setor de defesa promovendo inovações – como internet, energia nuclear, GPS – depois absorvidas pelo setor civil “agora se inverteu” – vide o desenvolvimento da Inteligência Artificial ou da computação quântica.

A Aliança está redigindo uma estratégia para a Inteligência Artificial e estabeleceu um “acelerador de tecnologia transatlântica” para conectar fornecedores civis à defesa. Também aprovou uma estratégia de defesa cibernética e definiu inequivocamente que o espaço cibernético, junto com o espaço sideral, vem se juntar aos tradicionais “terra, mar e ar”, como domínios abrangidos pelo art. 5.º da Carta, segundo o qual o ataque a um dos membros agride todos.

A Rússia segue sendo uma preocupação central para a Aliança, que criticou a proliferação de seus arsenais, suas agressões híbridas, ataques cibernéticos e campanhas de desinformação.

Todas essas pautas convergem para os “desafios sistêmicos” impostos pela China. No Conceito Estratégico da Otan de 2010, a China não era sequer mencionada. Na cúpula anterior, há 18 meses, falou-se em “oportunidades e desafios”. Agora, a ênfase esteve claramente nos desafios da China.

A caminho de se tornar a maior economia do mundo, a China construiu a maior frota naval e está expandindo seu arsenal nuclear. O comunicado do G-7, emitido dias antes, foi assertivo nas críticas a Pequim sobre direitos humanos, comércio e falta de transparência em relação à origem do coronavírus. O da Otan citou as “políticas coercitivas” da China, a conversão de tecnologias disruptivas em armas e sua participação com a Rússia em exercícios militares na área Euro-Atlântica e no espaço. O envolvimento de companhias chinesas em infraestruturas críticas é outra preocupação. “Nós os vemos na África, no Ártico e os vemos tentando controlar nossa infraestrutura”, disse Stoltenberg.

A resposta dos diplomatas “lobos guerreiros” chineses foi imediata. “Não apresentaremos um ‘desafio sistêmico’ a ninguém, mas se quiserem nos impor um ‘desafio sistêmico’ não ficaremos indiferentes.”

A cúpula foi embutida entre o encontro do G-7 e a reunião entre EUA e União Europeia. Ao embarcar para o seu tour europeu, Biden afirmou que pretendia “deixar claro para (o presidente da Rússia, Vladimir) Putin e a China que a Europa e os EUA estão firmemente unidos”. Em que pesem as reservas dos europeus por causa dos seus laços econômicos com ambos os países, do ponto de vista geopolítico o intento foi bem-sucedido. Resta ver se, e como, essa união se traduzirá em ação.

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