Os sinais vitais segundo a FGV

Embora sem recessão, a economia está muito fraca, com recuo na indústria e na agropecuária

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2019 | 03h00

O Brasil reagiu e escapou de uma recessão na primeira metade do ano, segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV). A avaliação, ainda provisória, deve animar quem procura sinais positivos. Entre abril e junho a economia produziu 0,2% mais que nos primeiros três meses, de acordo com o Monitor do PIB-FGV. Retração em dois trimestres consecutivos teria caracterizado a chamada recessão técnica. Foi esse o cenário – com recuo de 0,13% no segundo trimestre – mostrado pelo Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), divulgado na segunda-feira passada. O Monitor, com mais detalhes e base mais ampla de informações, saiu dois dias depois. A divergência será em princípio resolvida no dia 29, com os novos números do Produto Interno Bruto (PIB). Os dados oficiais são publicados de três em três meses pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

Embora sem recessão, o quadro da FGV mostra uma economia muito fraca, com recuo da produção da indústria e da agropecuária, dois dos três grandes setores. Só o setor de serviços, com avanço de 0,3%, cresceu em relação ao primeiro trimestre, de acordo com o Monitor. Serviços têm o maior peso estatístico na composição do PIB, mas a indústria, no Brasil, é muito mais importante como irradiadora de estímulos, como difusora de tecnologia e como geradora de empregos formais, com melhores salários, melhores condições de trabalho e maiores benefícios complementares. 

O quadro fica um pouco mais animador quando se examina a evolução dos indicadores num período mais longo. O PIB do segundo trimestre foi 0,7% maior que o de um ano antes. Mas, antes de celebrar, convém esperar o fechamento dos números do PIB, com possíveis correções dos números já publicados. Segundo informou o IBGE no começo deste mês, a produção industrial no segundo trimestre de 2019 foi 1% menor que no período correspondente do ano passado. Além disso, em junho, 17 das 26 atividades industriais pesquisadas produziram menos do que em maio, numa clara confirmação da fraqueza do setor. 

Também na comparação com o segundo trimestre do ano passado, o Monitor aponta expansão de 2,1% no consumo familiar. No mesmo tipo de confronto, o investimento em máquinas, equipamentos e obras, sintetizado como formação bruta de capital fixo, aumentou 4%. Em junho, a taxa de investimento correspondeu a 17,2% do PIB, na série baseada em valores de 1995. Em junho de 2013, essa taxa havia atingido o pico de 24,2%. 

O Brasil deveria manter esses investimentos em torno de 24% do PIB, regularmente, para passar a crescer como outros países emergentes. Antes disso será ilusão pensar em taxas sustentáveis de expansão econômica próximas de 4% ao ano. Não será possível, de outra forma, vencer as ineficiências mais evidentes da economia brasileira. Mantidas as condições atuais de produtividade, o crescimento do PIB ficará contido na faixa de 2% a 2,5% ao ano, segundo estimativas correntes entre os economistas. Mas há quem julgue otimista essa estimativa do potencial de crescimento. 

Não bastará, no entanto, investir em capital fixo. O Brasil está muito atrás dos países emergentes mais dinâmicos quando se trata de capital humano, isto é, de pessoal qualificado ou pelo menos em condições de absorver treinamento no trabalho.

Gastar mais nem é a necessidade mais urgente. Mais importante, nesta altura, é remontar os padrões do ensino, especialmente nos níveis fundamental e médio. Isso dependerá do trabalho de pessoas qualificadas tecnicamente e conhecedoras das melhores experiências. Educação para o desenvolvimento econômico e social passa muito longe das preocupações ideológicas dominantes em Brasília. 

Mas também é preciso cuidar do curto prazo. Ainda falta o impulso inicial, indispensável para arrancar o País do marasmo econômico, movimentar a indústria e, gradualmente, ampliar o emprego. Nada sério foi feito para isso neste ano. A reforma da Previdência é indispensável, mas bastará para estimular o consumo, a formação de estoques, a produção e o investimento? 

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