Otimismo de curto prazo

As expectativas de crescimento têm melhorado, mas o investimento produtivo continua baixo, faltam reformas e os recursos federais são escassos

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2021 | 03h00

Têm melhorado em Brasília e no mercado as expectativas de crescimento. A economia brasileira crescerá 3,50% neste ano, segundo a nova projeção do governo. A anterior indicava expansão de 3,20%. Várias instituições, incluídos grandes bancos, elevaram suas apostas. Segundo levantamento do Broadcast com 35 empresas do setor, a média das previsões passou de 3,2% para 3,8%. Na última pesquisa Focus, conduzida semanalmente pelo Banco Central (BC), a mediana das projeções chegou a 3,45%. Quatro semanas antes estava em 3,04%. Pela maioria desses cálculos, o Brasil chegará ao fim de 2021 sem ter retomado o nível de atividade anterior à pandemia. Em 2020, o Produto Interno Bruto (PIB) encolheu 4,1%.

O aumento da arrecadação, registrado pela administração federal e também pelos governos estaduais, é apontado pelo secretário especial da Fazenda, Bruno Funchal, como um bom indicador de recuperação dos negócios. Segundo o secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Adolfo Sachsida, a nova projeção de crescimento do governo central é conservadora. “Mas reflete”, acrescentou, “o bom momento que estamos vivendo no lado econômico.”

Sinalizações desse “bom momento” apareceram, nos últimos dias, nos balanços do primeiro trimestre publicados pelo BC e pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Pelo Índice de Atividade Econômica do BC (IBC-Br), o desempenho da economia no período de janeiro a março foi 2,30% superior ao dos três meses finais do ano passado. Mais detalhado, o Monitor do PIB-FGV apontou crescimento de 1,7% no mesmo período. Publicados mensalmente, os dois indicadores são vistos como prévias do PIB, divulgado a cada três meses pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A próxima divulgação do PIB oficial está prevista para 1.º de junho.

Embora registrando crescimento no primeiro trimestre, os dois indicadores apontaram recuo na passagem de fevereiro para março. Pelo IBC-Br, a queda foi de 1,59%. Segundo o Monitor, a perda foi de 2,1%. O bom resultado trimestral “surpreendeu”, de acordo com o pesquisador Claudio Considera, responsável pelo Monitor-FGV.

Nesse comentário, ele ressaltou o desempenho positivo dos três grandes setores – agropecuária, indústria e serviços – e o crescimento registrado também do lado da demanda. Mas acrescentou uma advertência: “Na comparação mensal, o fraco desempenho de março frente a fevereiro mostra a fragilidade deste crescimento, dado o acirramento das medidas de isolamento social em diversas cidades brasileiras”.

Outros fatores, além do isolamento, podem ter contribuído para o enfraquecimento da economia, especialmente do consumo familiar, nesse período. Não há como menosprezar o desemprego elevado nem as dificuldades de milhões de famílias pobres, privadas por mais de três meses do auxílio emergencial. Mas o professor Considera, em seu comentário, chamou a atenção para um aspecto de enorme importância das políticas públicas: a necessidade de avanço da vacinação como “primeiro passo para que a economia possa crescer de forma mais sustentável a longo prazo”. Não só no longo, pode-se acrescentar, mas também no curto prazo, como evidencia a experiência de países mais bem administrados.

Mas, para entender e avaliar com mais precisão a mudança nas expectativas, convém observar as projeções para os próximos anos. Economistas do governo e do mercado têm elevado suas estimativas de crescimento em 2021, mas sem alterar de forma significativa a expansão calculada para 2022 e para os anos seguintes.

O governo manteve em 2,5% a expansão do PIB esperada para cada um dos próximos quatro anos. Na pesquisa Focus, a mediana das projeções para 2022 foi de 2,33% para 2,38%. Para 2023 e 2024 continuou em 2,5%. Não aparecem nas estimativas sinais de aumento do potencial econômico. O investimento produtivo continua baixo, faltam reformas de grande alcance e os recursos federais são escassos, embora haja dinheiro num orçamento paralelo para agradar aos aliados ocasionais de um governo sem partido.

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