Otimismo depois da vírgula

O crescimento estimado para este ano passou de 0,81%, número publicado em julho, para 0,85%, de acordo com o Boletim MacroFiscal

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2019 | 03h00

Com a primavera chega a recuperação econômica, segundo o governo. O pior momento ficou para trás, em agosto, e a partir de setembro vem a retomada, segundo o secretário especial de Política Econômica, Adolfo Sachsida. Mas o otimismo em relação a 2019 só aparece depois da vírgula, na casa centesimal. O crescimento estimado para este ano passou de 0,81%, número publicado em julho, para 0,85%, de acordo com o Boletim MacroFiscal apresentado ontem. Pela explicação oficial, a melhora resultará do corte do juro, da elevação da confiança e do início da liberação de recursos do FGTS. Além de aparecer na segunda casa depois da vírgula, a reação esperada já neste ano deve começar muito fraquinha. No terceiro trimestre, indicam as contas, o PIB deve ser 0,2% maior que no segundo e 0,7% superior ao de um ano antes. É uma reação um tanto estranha. Afinal, no segundo trimestre os mesmos tipos de comparação mostraram avanços de 0,4% e de 1%. 

É preciso ter paciência e compreensão, dirão os otimistas. Dificilmente o arranque a partir de setembro poderia produzir grande mudança no resultado final de 2019. O efeito deverá ser muito mais sensível no próximo ano. Pode ser, mas qual o crescimento previsto para 2020? Não há resposta para isso no boletim da Secretaria de Política Econômica (SPE). Mas há uma projeção oficial embutida na proposta de Orçamento enviada no fim de agosto ao Congresso. Segundo essa estimativa, o PIB deverá crescer 2,17% no próximo ano. É um número muito parecido com o do Boletim MacroFiscal de julho, 2,20%. Na Lei de Diretrizes Orçamentárias, enviada ao Legislativo em abril, apontava-se uma expansão de 2,74%. 

No mercado há apostas inferiores a essas. Na última pesquisa Focus, publicada pelo Banco Central anteontem, a mediana das projeções indicou um crescimento de 2,07% em 2020. A taxa calculada para 2019 foi 0,87%, quase igual à do novo boletim da SPE. 

Uma estimativa do governo para o avanço do PIB em 2020 deve ser anunciada no dia 20, quando sair o próximo relatório bimestral de receitas e despesas da União. Não há razão, pelo menos até agora, para se esperar um número muito maior que o mencionado como referência na proposta de Orçamento. Não há como afirmar, neste momento, se será muito diferente dos números conhecidos até agora. A expectativa oficial continuará provavelmente abaixo de 2,50%, taxa incluída nas projeções do setor financeiro durante vários meses. O novo número oficial só será sensivelmente maior que aqueles 2,17% se o governo surpreender o público com algum argumento muito poderoso e ainda insuspeitado. 

Para quem acompanha com preocupação o enfraquecimento da indústria, o terceiro trimestre, marco da recuperação anunciada pelo governo, deve trazer nova decepção, segundo o Boletim MacroFiscal. Pela estimativa recém-divulgada, a produção industrial deve ser 0,4% menor que a do segundo trimestre e 0,5% menos volumosa que a do período correspondente de 2018. A explicação, de acordo com o boletim, estará no fraco desempenho da indústria de transformação, na perda de impulso da construção civil e nos problemas da indústria mineral, ainda afetada pelo desastre de Brumadinho. Só os serviços industriais de utilidade pública devem estar em crescimento neste trimestre. 

O secretário especial de Política Econômica tem lembrado a recusa do ministro da Economia, Paulo Guedes, de provocar um voo de galinha. De fato, crescimento sustentável só será possível com grandes mudanças, incluída a tributária. No entanto, o secretário falou de setembro como “começo de um novo período”, embora o investimento continue baixo e só a reforma da Previdência tenha avançado. O impulso inicial, se vier, virá com atraso, porque o atual governo desprezou por muito tempo os estímulos de curto prazo. Mas poderá ser o começo de uma retomada firme, se o governo tiver competência para avançar na agenda. O quadro já seria mais favorável se o governo houvesse dado atenção, desde cedo, ao drama dos desempregados.

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